O Governo de Tomé de Sousa

Entre 1531 e 1540 muitas notícias se tem do comércio francês no Brasil e das tentativas corsárias, que levaram as relações entre Portugal e França a um clima tenso, mas não existem referências a estada dos franceses no Rio de Janeiro. Apesar de um acordo de amizade e aliança, assinado entre as duas cortes, em Lyon a 14 de julho de 1536, os navios franceses continuaram a cometer atos de represália em pleno Atlântico.(1)

Entre 1540 e 1544 a atividade corsária no Brasil teve evidente decréscimo. Esta fase corresponde à última fase do reinado de Francisco I e à luta que então mantinha, ao longo da fronteira da França, com o Imperador Carlos V. No entanto, a Corte francesa jamais aceitara a doutrina do "mare clausum", que lhe barrava a rota do Atlântico, enquanto que as Metrópoles Ibéricas continuavam a alargar suas áreas de domínio ultramarino. A partir de 1544 renasce na França, a política de infiltração Antártica, com o aumento dos ataques corsários, em forma cada vez mais audaciosa, contra as terras portuguesas no Brasil.

Enquanto a ameaça se dirigia somente às capitanias do Norte, tinham podido os capitães proteger a terra; mas redobrando a audácia dos corsários para o sul, onde as condições de defesa eram precárias, as Capitanias ficaram à mercê dos atacantes. Portugal instituiu a forma de Governo Geral e o primeiro Governador, Tomé de Sousa, partia de Lisboa e desembarcou na Bahia em 29 de março de 1549, acompanhado de quatro padres jesuítas, entre eles o célebre Manoel da Nóbrega. Sua meta prioritária era defender o território do Brasil e expulsar os corsários franceses.

Em 1550, Tomé de Sousa determinou que não se cortasse nem carregasse pau-brasil, sem sua autorização régia. Os que tivessem licença para o carregamento:

"que ffossem carregar aos Petyguares e ao Rio de Janeiro."(2)

Isto mostra a importância da região, onde o pau-brasil abundava, principalmente na zona de Cabo Frio. Desta forma, impunha-se que o Rio de Janeiro fosse demarcado como um dos centros de abastecimento e as caravelas portuguesas que ali fossem abastecer-se, concorriam para afastar de vez o inimigo, fazendo com que a região não mais permanecesse deserta e à mercê dos franceses. Todos os cuidados, no entanto, não impediram que o Rio de Janeiro se tornasse a maior escala dos corsários.

Em 1551, segundo Joaquim Veríssimo Serrão:

"a costa mantinha-se assolada de franceses. A nau carregada de açúcar, pertencente a Francisco de Barros de Azevedo, partira de São Vicente para o norte, mas foi atacada e queimada na região do Espírito Santo. A nau de Jorge de Melo, filho de Vasco Fernandes Coutinho, fora perseguida pelos franceses e muitas outras notícias se teve de navios portugueses aprisionados pelos corsários da França."(3)

Antes de deixar o Governo Geral, Tomé de Sousa fez uma viagem às Capitanias do Sul, chegando ao Rio de Janeiro em dezembro de 1552. Desta viagem conhece-se uma Carta do Governador(4) e outra de um jesuíta (5), companheiro de Nóbrega, para os irmãos do Colégio de Lisboa. São duas valiosas fontes para a história do Rio de Janeiro. A carta do jesuíta informava que os portugueses não podiam sair em terra, porque o índios Tamoios faziam guerra aos portugueses, mas os jesuítas subiram o rio até a aldeia dos índios com os quais mantinham amizade. No contato com os nativos, Nóbrega e os jesuítas teriam fundado a primeira Catequese Cristã no Rio de Janeiro. O lugar onde os índios habitavam era a Ilha de Maracajá, depois chamada de Ilha do Governador. No final de 1552, informa o jesuíta, fazia imenso calor, deixando doentes muitos homens da expedição. O Governador mostrara interesse de fundar, neste local, uma grande povoação. Na carta do Governador também é manifestado o interesse em fundar uma povoação e Tomé de Sousa não escondeu o encanto que a visão do Rio de Janeiro causara ao seu espírito.

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O Governo de Duarte da Costa

A corte não se interessou muito pela sugestão de Tomé de Sousa e continuou dando maior importância ao norte do Brasil, particularmente ao Maranhão. Perdia-se de novo a oportunidade de se fixar as bases de uma povoação na Guanabara, quer sob a forma de uma arraial português ou mesmo como um pequeno forte para defesa da costa abandonada desde o Cabo Frio até São Vicente. Em 1º de março de 1553 foi nomeado Duarte da Costa para segundo Governador Geral. Este não ficou feliz no cargo, pelos conflitos criados com o Bispo de Salvador e pelo abandono que relegou às Capitanias do Sul. Foi criticado pelo nepotismo do seu governo e pela exagerada proteção que deu a seu filho D. Álvaro da Costa.

Com Duarte da Costa vieram para Brasil os jesuítas José de Anchieta e Luís de Grã, que juntamente com Manoel da Nóbrega, desempenhariam importante papel nos acontecimentos que se desenrolariam na região da Guanabara daí em diante até a expulsão dos franceses e tomada de posse definitiva da região pelos portugueses.

Em 1549, a bordo de um navio espanhol com destino ao Rio da Prata, saiu de Sevilha, o alemão Hans Staden. Chegou ao sul do Brasil a 24 de novembro. Conviveu com os aborígines, algumas vezes como amigo, às vezes não. Nos primeiros meses de 1554, vivia prisioneiro de uma tribo, a oito milhas do Rio. Vivia-se na época, o período de guerra entre Tupi Imba e os portugueses de São Vicente, enquanto que os franceses tinham boas relações com os Tamoios. Uma das mais belas páginas de Hans Staden relata a luta entre Tupin Ikis, amigos do portugueses e Tupi Imbas, aliados dos franceses.(6)

Quando Staden, em 31 de outubro de 1554, regressou à Europa, num barco francês, Catherine de Waddeville, não havia ilusões quanto à intenção da França de dominar comercial e politicamente a região. O Rio de Janeiro desamparado pelos portugueses ia se transformar no cenário de uma grande empreitada francesa para a conquista militar da terra, onde pretendiam lançar os fundamentos de uma futura colônia. O ano de 1555 viria a ser um ano em que sobrevivência do Brasil português esteve em perigo, porque a presença francesa significou efetivamente uma invasão do território com o objetivo de ocupação e não apenas de exploração do pau-brasil. O Governo da Bahia, por absoluta falta de recursos não teve condições de enfrentar os franceses.

A carência de pulso governativo, aliado aos fracos meios de defesa que a Metrópole fornecia à terra do Brasil, fizeram recair sobre a figura de Duarte da Costa uma nota de incapacidade que as cartas do tempo não conseguem ocultar. Suas cartas ao monarca, em 1555, revelam constante justificativas perante as queixas que, vindas do Brasil, contra ele corriam na Corte. Num ambiente de querelas miúdas não lhe seria possível estar à altura das responsabilidades do cargo, e por compreender os acontecimentos, já em carta de 20 de maio de 1555, solicitava a D. João III que lhe encurtasse o tempo de governo.

 

(1) - Carta de D. João III a Rui Fernandes de 24 de novembro de 1536, A.N.T.T., Corpo Cronológico, parte I, maço 58, doc. 14.

(2) - Carta de Duarte de Lemos a D. João III, Bahia, 18 de julho de 1551, A.N.T.T., Corpo Cronológico, parte I, maço 84,
doc. 99, publicado in MALHEIROS, Carlos Dias História da Colonização Portuguesa no Brasil, volume III, página 267.

(3) - - Joaquim Veríssimo Serrão. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol. I, Lisboa, Edição da Comissão Nacional
de Comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro, 1965, pág. 48.

(4) - Carta de Tomé de Sousa a D. João III, Salvador, 1 de junho de 1553, A.N.T.T., Corpo Cronológico, parte I, gaveta
18, maço 8, doc 8, in SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol. II, págs. 25-29.

(5) - Carta de 10 de Março de 1553, publicada pelo Padre Serafim Leite, Nóbrega e a Fundação de São Paulo, Lisboa, 1953 -
páginas 13-19 apud SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol. II, pág. 49.

(6) - Viagem ao Brasil, versão do texto de Marpurgo de 1557, por Alberto Lofgren, revista e autorizada por Theodoro
Sampaio, Rio de Janeiro, 1930, páginas 102-110 apud SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio de Janeiro do Século XVI.
Vol. II, págs. 51-52


Continua na página OS FRANCESES NO RIO - A TERRA DOS TUPINAMBÁS
 




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