D. João VI no Rio O Rio de Janeiro
Joanino
Pranchas de Jean Baptiste
Debret
Comemoração dos 200
Anos da Chegada de D. João
VI ao Rio de Janeiro

D. JOÃO VI NO RIO

O RIO DE JANEIRO JOANINO



O Progresso Cultural do Rio de Janeiro

A instalação do corpo burocrático no Rio de Janeiro atraiu para a cidade grande contingente de pessoas, e em dez anos, o número de habitantes da cidade passou de sessenta mil para cento e cinqüenta mil. A cidade contava na épocas com 46 ruas, 4 travessas, 6 becos e 19 largos e praças, logradouros nos quais as pessoas andavam a pé ou a cavalo.

Com a chegada da Corte os charcos foram aterrados, novas ruas foram abertas e as antigas alargadas, para circulação de novos veículos de grande porte vindos de Lisboa. A cidade, que durante dois séculos pouco se desenvolveu, na época, ampliou-se em direção a S. Cristóvão, Laranjeiras e Botafogo. Houve grande mudança na sua arquitetura que entre outras coisas passou a ostentar janelas envidraçadas, até então pouco utilizadas.

Entre outros aspectos teve início do Rio de Janeiro um esboço de vida cultural, o acesso aos livros e também uma relativa circulação de idéias marcaram este período. Em setembro de 1808, teve início a edição do primeiro jornal brasileiro, a "Gazeta do Rio de Janeiro", de caráter oficial, noticiava atividades da Corte, mas não apresentava nenhuma discussão política. A cidade ganhou teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas e passou a receber imigrantes não só portugueses como espanhóis, franceses e ingleses, que formaram uma classe média de profissionais e artesãos qualificados.

D. João gostava do Brasil e não queria voltar para Portugal, quando Napoleão foi derrotado. Os artistas que trabalhavam para Napoleão ficaram desempregados e D. João mandou para a Europa o Conde da Barca com o objetivo de trazer para o Brasil os artistas franceses. Estes artistas vieram com a Missão Artística Francesa, que chegou ao Brasil em 1816 e que era chefiada pelo pintor Joaquim Lebreton, que havia sido chefe de todos os museus e bibliotecas francesas e foi um dos organizadores do Museu do Louvre.

Junto com estes artistas vieram pedreiros, serralheiros e grande quantidade de profissionais especializados, num total de 46 pessoas. Devido a esta Missão foi fundada no Rio de Janeiro, em 1826, a Real Escola de Ciências, Artes e Ofícios, primeira escola profissionalizante do Brasil. O prédio da escola foi projetado por Grandjean de Montigny, em 1816, em estilo Neoclássico.

Faziam parte da Missão Artística Francesa artistas como:

  • Os Taunay: Nicolas-Antoine - pintor de motivos históricos e subchefe da Missão, veio com seus quatro filhos, entre eles os pintores Félix-Emile e Aimé Adrien; mais seu irmão Auguste-Marie, escultor que fazia bustos de bronze e que lecionou escultura na Academia Imperial de Artes e Ofícios;

  • Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny - arquiteto de renome, que recebeu em 1799 o Grande Prêmio de Arquitetura de Roma e que foi autor de vários projetos de edificação urbana na cidade como: o prédio da Real Escola de Ciências, Artes e Ofícios, depois Academia Imperial de Artes e Ofícios e do prédio que hoje abriga a Casa França-Brasil;

  • Charles Pradier - pintor que fez um dos melhores retratos oficiais de D. João VI;

  • Os Ferrez: Marc e Zéphyrin - irmãos entucadores e escultores, chegaram ao Braisl em 1817 e criaram a primeira moeda brasileira. Marc era pai de Marc Ferrez que deixou para a cidade os mais fantásticos trabalhos de fotografia do Rio de Janeiro, no Século XIX, como pode ser visto nas fotos do Morro do Castelo, nas páginas Centro e Centro - Praça Quinze de Novembro e também do Paço de São Cristóvão;

  • Jean-Baptiste Debret - primo do grande pintor francês Jacques-Louis David, que foi também seu mestre. Foi o maior pintor da época e deixou importante coleção de desenhos e aquarelas da cidade e dos costumes de seus habitantes. Sua obra que não encontra ainda hoje paralelo na iconografia brasileira pode ser vista nos Museus Castro Maia: no Museu do Açude no Alto da Boa Vista e na Chácara do Céu em Santa Teresa. Este trabalho apresenta alguns quadros de Debret, como o Largo do Paço na Praça Quinze de Novembro e Pranchas de D. João VI e de D. Pedro I.

Debret voltou à França em 1831 e deu início à edição de: Voyage Pictoresque et Historique au Brésil, obra monumental em três volumes, lançada entre 1834 e 1839, na qual, em 151 pranchas, apresenta o país.

Após a morte de Joaquim Lebreton, em 1820, assumiu o comando da escola o português Henrique José da Silva, pintor medíocre que criou todos os entraves burocráticos possíveis para obscurecer o trabalho dos franceses.

A presença da Missão Artística acarretou uma expansão dos estudos investigativos com a criação de academias e um museu e transformou os cenários intelectual e educacional brasileiros. A hegemonia dos componentes da Missão era a estética Neoclássica, então hegemonia no Mundo Ocidental. Os artistas franceses contribuíram para a formação de inúmeras gerações de artistas brasileirros, que contribuíram para a arte brasileira da época.

D. João criou no Rio de Janeiro em 1808 a Escola de Medicina, a Imprensão Régia e o Jardim Botânico que deu origem ao Horto Real; em 1810 a Biblioteca Real, primeiro núcleo da Fundação Biblioteca Nacional que na época já possuia 14.000 volumes trazidos de Portugal e em 1816 o Museu Real.

D. João também consolidou a cidade como Centro Militar com a criação da Academia Real Militar e a Academia de Marinha, da Real Fábrica de Pólvora e da Brigada Real que depois passou a ser designado de Corpo de Fuzileiros Navais.

A presença da Corte atraiu missões de exploração científica européias, como: a do mineralogista alemão Von Eschwege; os sábios bávaros Spix e Martius, em 1817 e os naturalistas Auguste de Saint-Hilaire, em 1816 e Maximilin Zu Wied Neuwied, em 1815.

Na música se destacaram: o compositor português Marcos Portugal e o mestiço José Maurício Nunes Garcia - 1767-1830, organista, compositor e professor de música, que foi o músico mais importante de sua geração. A Capela Real contava na época com uma orquestra de cem músicos e cantores líricos.

Em 1808 foi criada a Escola de Anatomia de Cirurgia e Medicina no Hospital Real Militar da Corte, até então os serviços médicos da cidade eram bastante deficientes, existiam poucos hospitais que pertenciam às ordens religiosas, predominando a existência de falsos médicos. Em 1809 foi instituída uma forma de exames para se obter o direito de trabalhar como médico e cirurgião no Brasil. Em 1811, D. João criou uma junta encarregada de vacinar a população e entre 1811 e 1835 foram vacinadas 102.718 pessoas.(1)

Retorna ao Início da Página



Urbanização e Segurança

O Príncipe Regente logo após a chegada ao Rio de Janeiro foi residir na Quinta da Boa Vista, que era de propriedade de Elias Antônio Lopes e passou a ser o Paço de São Cristóvão. O antigo palácio dos Vice-Reis sede oficial do poder passou a ser o Paço Real da Cidade. A esposa de D. João, Dona Carlota Joaquina e a rainha Dona Maria I se instalaram no Convento do Carmo.

Os servidores mais próximos do príncipe foram instalados: no Paço da Cidade, na prisão, de onde os presos foram retirados; num teatro; no Mosteiro de São Bento e na Igreja do Rosário, na atual Rua Uruguaiana. Os fidalgos ocuparam as melhores casas da cidade, de onde os proprietários eram sumariamente expulsos e as casas recebiam uma plaqueta com as letras PR, de Príncipe Regente, mas à qual a população passou a se referir como "ponha-se na rua". Entre 1808 e 1816 foram construídos nos arredores da cidade, cerca de seiscentas casas na zona urbana e cento e cinqüenta fora da cidade.

Em 1808 a cidade chegava até o Rossio Pequeno, atual Praça Onze, a expansão inicial foi realizada em direção a São Cristóvão. Para se ligar o Paço de São Cristóvão ao centro urbano, foi feita a drenagem do Campo de Santana e seus arredores e foram aterrados o Mangal de São Diogo e a Praia Formosa, surgindo o caminho do Aterro, na região onde hoje fica a Av. Presidente Vargas. Na direção de São Cristóvão surgiram novos bairros: Mata Porcos, atual Estácio de Sá; Catumbi; Gamboa e Rio Comprido, que formavam o que se passou a conhecer como Cidade Nova, em contraste com o centro comercial que passou a ser a Cidade Velha.

Os imigrantes e o corpo diplomático preferiram construir suas residências nos novos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo indo até Laranjeiras e Cosme Velho. Os franceses preferiam se instalar na Floresta da Tijuca, com o objetivo de cultivar café. Os ricos preferiam ocupar São Cristóvão e as encostas de Santa Teresa e as residências populares multiplicavam-se nos cortiços do Centro.

Por volta de 1810, o Rio de Janeiro passou Salvador da Bahia e tornou-se a maior cidade do Brasil. As freguesias urbanas passaram a ser cinco com a criação de Santana, além das já existentes: Candelária e São José habitadas pelos grupos dirigentes que não optaram pelos novos bairros e Santa Rita e Sacramento, habitadas pelas pessoas mais pobres. As freguesias rurais eram nove: Engenho Velho; Lagoa; Irajá; Jacarepaguá; Inhaúma; Guaratiba; Campo Grande e as Ilhas do Governador e de Paquetá. As mais próximas da cidade foram aos poucos se transformando em áreas residenciais.

Na cidade não existia qualquer política de higiene pública e ela era mal iluminada, "em 1829 havia na zona urbana 550 lâmpadas mantidas pela administração pública".(2) O acesso à água potável, através dos chafarizes, marcavam a concentração residencial e a multiplicação de aguadeiros, tão mencionados por diversos viajantes.

Com a chegada da Família Real no Rio de Janeiro a Sé foi transferida da Igreja de N. Sra do Rosário e São Benedito para a Igreja do Carmo que foi elevada à categoria de Capela Real e Catedral, com a instalação em suas dependências do Cabildo do Bispado. Algumas igrejas foram construídas e em 1828 existia na zona urbana da cidade: onze igrejas, vinte e uma capelas, seis conventos e dois seminários. Na Rua Direita, em 1811, foi construída a Igreja de Santa Cruz dos Militares, no local onde já existia uma capela.

Outra edificação da cidade que se destacava era o Real Teatro de São João, depois Teatro Imperial de São Pedro de Alcântara, inaugurado em 1813 no Largo do Rossio Grande, hoje Praça Tiradentes, havia também diversas construções de Grandjean de Montigny inclusive sua propriedade na Gávea, onde hoje funciona a Pontifícia Universidade Católica. Nestes anos o estilo predominante da cidade era o Neoclássico.

A Intendência Geral de Polícia da Corte era o órgão que cuidava das questões de segurança e organização urbana, tinha o poder de recrutar à força os vadios em frentes de trabalho compulsório e também era responsável pela limpeza pública e pelas condições sanitárias urbanas. O Intendente era o Ministro responsável pelas obras públicas no perímetro da cidade, sendo o responsável pelo abastecimento d'água e da ligação por terra entre o Centro e São Cristóvão por onde hoje passa a Avenida Presidente Vargas.

Em 1809 foi criada a Polícia Militar, dela fazendo parte o Major Vidigal que foi o inspirador do romance Memórias de um Sargento de Milícias.

Retorna ao Início da Página



Economia e Sociedade

Em 1808, D. João abriu os portos e revogou as proibições relativas às manufaturas no Brasil. Em 1809 as matérias primas para as indústrias brasileiras foram liberadas dos impostos. Em julho de 1820 foi inaugurada a Praça de Comércio do Rio de Janeiro, que ficava na Rua Direita.

Em 1810, foi assinado o tratado de Navegação e Comércio com a Inglaterra que fixava a tarifa a ser paga pela Inglaterra sobre as mercadorias exportadas para o Brasil em 15% do seu valor, dando vantagem aos produtos ingleses até mesmo sobre os produtos portugueses.

Do ponto de vista comercial, o Porto do Rio não possuía rival no Brasil em qualquer domínio: no comércio exterior com a Europa; no tráfico de escravos; no comércio terrestre para regiões do interior e no comércio de cabotagem pela costa brasileira. De Portugal vinham os produtos como vinho e azeite, da Inglaterra produtos manufaturados, da França vinham o tabaco, couros e trigo, da África os escravos, algodão e madeira. Pelo Porto eram exportados o açúcar, aguardente, algodão, café, madeiras, couros e pedras preciosas. O Porto distribuía, por cabotagem e por terra produtos europeus e escravos para outras regiões do Brasil e exportava matéria prima e alimentos chegados ao Rio, do interior.

A ação do Estado fez surgir algumas manufaturas têxteis e militares do Arsenal de Guerra e da Marinha, onde trabalhavam pessoas livres e escravos, nos arsenais também existia o trabalho de prisioneiros. O papel das manufaturas até 1840, foi inferior ao da agricultura e do comércio.

Na economia predominava uma atitude liberal e de grande participação estrangeira, principalmente britânica. Os ingleses ocuparam a região próxima do Porto vendendo produtos manufaturados e outros artigos, além de fazerem do Rio de Janeiro um centro de reexportação para o Rio da Prata e as colônias britânicas. Os franceses começaram a se instalar depois de 1814 ao redor da Rua do Ouvidor, chegaram também italianos, alemães, suíços, irlandeses, suecos e outros.

As ruas do centro começaram a se especializar em determinados tipos de comércio como: a Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, onde se instalava este tipo de comerciante e as Ruas do Ouvidor e Direita que concentravam o comércio varejista.

A partir de 1808, D. João ampliou o poder central e reforçou a fiscalidade, criou uma série de novos impostos e aperfeiçoou os mecanismos de arrecadação, assim a derrama recebeu um grande aumento de atividade, o que representou aumento de divisas para o Estado.

Em 12 de outubro de 1808 um Alvará do Principe Regente criou o primeiro Banco do Brasil que teve o início de suas atividades em 11 de dezembro de 1809, após ter sido constituído o capital necessário ao seu funcionamento. Seu objetivo era dar suporte financeiro à tesouraria da Coroa.

Quando a Corte chegou ao Rio de Janeiro, ela era uma cidade provinciana com costumes que recordavam de certa forma usos orientais. O impacto da Corte foi imenso e influenciou as áreas de negócios, financeira, empregos públicos, arquitetura e outras, fazendo com que a cidade adquirisse uma visão mais cosmopolita e costumes menos rústicos. A cidade adquiriu uma classe média que antes não existia.

Apesar das grandes transformações ocorridas, elas tiveram limites , porque o crescimento econômico e demográfico trouxe com eles o aumento do tráfico negreiro e do número de escravos, que trabalhavam em numerosas especialidades domésticas e também em atividades produtivas urbanas e rurais. Os libertos se relacionavam sobretudo com os escravos, o que levou a uma grande repressão policial contra eles, suas festividades e toda forma de associação, pelo temor de que pudessem se sublevar.

Entre as festividades populares de tradição portuguesas, uma das mais importantes era o "entrudo", proveniente dos Açores e outras ilhas, que deu origem ao carnaval propriamente dito. Debret deixou uma importante descrição do "entrudo" em uma gravura desta festa na cidade.

O período Joanino alavancou decisivamente o desenvolvimento do Rio de Janeiro. A partir de 1808 o surto expansionista que tomou conta da cidade foi imenso e a prosperidade do café associado ao dinamismo geral foi capaz de resistir à retirada de D. João VI com quatro mil companheiros, levando para Portugal as reservas de dinheiro, joiás e metais preciosos do Banco do Brasil, fato que apesar de ter gerado uma série de falências não foi suficiente para impactar o progresso da cidade e a Capital foi capaz de superar a crise e manter o papel de epicentro econômico do Império, mas o Banco foi fechado em 1829.

 

(1) - ARÁUJO, A. R.. A Assitência Médica Hospitalar no Século XIX, MEC, Rio de Janeiro, 1982, pág. 11-27.

(2) - CARDOSO, Ciro Flamarion e ARAÚJO, Paulo Henrique. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Editorial MAPFRE, pág. 148.



Retorna à página D. JOÃO VI NO RIO
Retorna ao início da página