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O RIO DE JANEIRO NA REPÚBLICA DO BRASIL

A REPÚBLICA VELHA - 1889-1930

A CONTESTAÇÃO DA ORDEM OLIGÁRQUICA



Do movimento que procurou ampliar o reduzido espaço de participação política nas manifestações que precederam a transição do regime Imperial para o Republicano, o republicanismo foi pouco a pouco empolgando amplas parcelas dominantes, indiferentes ao seu sentido de Governo da "coisa pública" que a república significava. Diante desta contradição não se pode estranhar os contínuos sobressaltos ocorridos na trajetória da República do Brasil porque a 1ª República teve que conviver com diversos movimentos de contestação.

Os Movimentos Sociais Urbanos

As Revoltas da Vacina e da Chibata

"Ao Povo e ao Chefe da Nação. Os marinheiros do "Minas Gerais", do "São Paulo", "Bahia", "Deodoro" e mais navios de guerra vistos no porto, com a bandeira encarnada, não têm outro intuito que não seja o de ver abolido das nossas corporações armadas o uso infamante da chibata que avilta o cidadão e abate os caracteres"...(1)

Dos marinheiros da Armada Brasileira



Charge da Vacina Obrigatória, publicada na Revista da Semana em 2 de
outubro de 1904. Pertencente à Coleção de Joaquim Vidal, copiada do livro
de Eduardo Bueno. Brasil: uma História – A Incrível saga de um País, pág. 279.

A Revolta da Vacina ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal, em 1904. Seu pretexto teria sido a campanha de vacinação em massa contra a varíola, desencadeada por decisão da própria Presidência da República, num contexto de reformas, realizadas quando era Prefeito Pereira Passos, visando modificar os hábitos da cidade e transformá-la numa capital ao modelo de Paris.

No entanto, os setores de oposição política, formadas de dois agrupamentos: os jovens oficiais das forças armadas que se impuseram ao país durante os Governos militares e os monarquistas depostos pelo novo regime; aproveitaram a indignação da população e usaram a ocasião para articularem um golpe contra o Governo.

A Revolta foi deflagrada em 9 de novembro de 1904, com o decreto de regulamentação da vacina obrigatória e a partir do dia 16 com a revogação da obrigatoriedade da vacina e dada a repressão, o movimento refluiu até a completa extinção. A cidade ressurgiu da revolta irreconhecível, calçamentos revolvidos, casas ruídas, janelas estilhaçadas, portas arrombadas, trilhos arrancados, restos de bondes, carros e carroças calcinados nas ruas, crateras de dinamites e petardos, ruínas de prédios incendiados, lâmpadas quebradas, postes, bancas, relógios e estátuas arrancadas, trincheiras improvisadas, barreiras de arame farpado, perfurações de balas por toda parte, manchas de sangue, cavalos mortos, cinzas fumegantes.

Como resultado muitas pessoas foram presas e deportadas; os militares e alunos da Escola Militar da Praia Vermelha foram detidos e aprisionados, muitos exilados em região de fronteira sendo a Escola fechada. Os líderes civis foram encarcerados e processados por tribunais militares e os populares perseguidos e presos.

Era difícil considerar que toda aquela revolta pudesse se originar somente pelo receio popular contra a vacina, muito embora ela pudesse simbolizar uma posição contra uma tradição religiosa dos praticantes de religiões afro-brasileiras, a variolização, conforme defende Sidney Chaloub(2) e também pudesse se considerar que a medicalização, a ação da medicina agindo sobre a vida da população, nesta época em que a medicina científica estava tendo seu início, tinha uma tendência de rejeição por parte da população, porque nem mesmo os médicos eram unânimes na aceitação de certas práticas.

Por outro lado era tradição da cidade do Rio de Janeiro a revolta da população e neste caso, como defende Nicolau Sevcenko,(3) a revolta não era contra a vacina, mas contra a História, na qual o papel que era reservado à população era intolerável e ela lutava para mudar.

A indisposição para com a hegemonia e o projeto político dos paulistas já vinha desde o Governo de Prudente de Morais e com Campos Sales a oposição ganhou força com o descalabro econômico e as aventuras fiduciárias. Pretendia-se apresentar um Governo sólido e estável ao mundo das grandes potências, de acordo com as pretensões dos paulistas, para poder atrair recursos para a cafeicultura paulista que não podia sobreviver sem empréstimos externos que financiassem a expansão das lavouras e que ao final era a grande beneficiária da política econômica.

A Política dos Governadores, ajustada por Campos Salles veio consagrar a situação política, desarticulando as possíveis oposições nos Estados e garantindo o pleno apoio de que o Presidente necessitava no Congresso Nacional, mais do que o Regime republicano, se consolidava a hegemonia paulista. Rodrigues Alves viria a ser a última e decisiva peça na construção desta hegemonia, com a reforma burguesa que mostraria ao mundo a grandeza do país através de sua Capital reformulada.

O processo de reforma urbana foi saudado pela imprensa conservadora como a "Regenação", abriu espaço para uma cidade reformulada, ampla e elegante, mas tirou dela a massa trabalhadora que teve que se retirar para locais mais distantes. Diante do quadro que se formou, pode ser considerado que a Revolta da Vacina foi o grito de guerra da população contra todas as dominações que se faziam na cidade do Rio de Janeiro.

Já a Revolta da Chibata foi uma Revolta popular de marinheiros, ocorrida em 1910, contra os castigos físicos aplicados na Marinha, um dia após a posse no Governo de Hermes da Fonseca, também no Rio de Janeiro, mostrando pessoas informadas dos novos conceitos de cidadania que a República queria utilizar, para pedirem que a prática fosse excluída.

Os tripulantes do encouraçado Minas Gerais, com mais de dois mil homens, comandados pelo marinheiro João Cândido Felisberto, se amotinaram e mataram o Comandante João Batista das Neves. Aderiram ao motim os encouraçados São Paulo, Deodoro e Bahia.

O Presidente e os Senadores Pinheiro Machado e Rui Barbosa concordaram com as reivindicações feitas e prometeram anistia aos amotinados, mas quando a Revolta parecia estar terminada, um Decreto Presidencial que permitia que os revoltosos mais importantes fossem expulsos da Marinha associado a uma Revolta de Fuzileiros, fez com que os amotinados decidissem bombardear a Ilha das Cobras em apoio aos fuzileiros.

Hermes da Fonseca reagiu com repressão e as anistias que já haviam sido concedidas foram suspensas, muitos revoltosos foram fuzilados. João Cândido foi preso num cubículo e depois de dezoito meses foi internado num hospício, foi liberado em 1914 e morreu de câncer em dezembro de 1969 no Rio de Janeiro, na miséria. Mas a sorte de outros companheiros foi pior que a de João Cândido, alguns foram enviados para a Ilha das Cobras e outros foram deportados para o Acre no cargueiro Satélite, onde alguns foram fuzilados, e os que chegaram foram trabalhar nos seringais ou fazer parte da Comissão Rondon.

A importância do movimento foi o de conseguir acabar com os castigos físicos, mas o fato de marinheiros terem se apossado de parte dos navios pertencentes à terceira maior Marinha do mundo na época, ameaçando bombardear a cidade que era a Capital da República, mostrou a grande fragilidade de um sistema, que se viu ameaçado através de suas próprias instituições. A República apesar de estar consolidada, ainda tinha uma estrutura muito fragilizada.



O Sindicalismo Operário e suas Vertentes

Na formação da classe operária dois fatores estruturais podem ser considerados: os econômicos e a composição étnica.

Os fatores econômicos estão ligados à industrialização brasileira, a acumulação de capital proveniente do café e da imigração estrangeira formando a mão-de-obra que veio trabalhar na cafeicultura. Entre 1872 e 1900, o que se classificava como indústria dizia respeito às "artes e ofícios", em geral, os marceneiros, ferreiros, mecânicos, os trabalhadores artesanais e as indústrias caseiras. Em 1900 numa fábrica têxtil se trabalhava quatorze horas por dia.

Em 1907 a indústria brasileira nascente não seria mais caracterizada por uma massa de pequenos e médios estabelecimentos, de tipo artesanal ou manufatureiro. A produção da indústria nascente era fundamentalmente proveniente de um pequeno número de fábricas em especial as de fiação e tecelagem, mas a maioria de operários trabalhava em fábricas razoavelmente grandes, apesar da existência de um setor majoritário de pequenas empresas. A militância operária, embora não se tenha muita clareza em relação à sua formação parece ter ocorrido igualmente nas fábricas e nas oficinas.

A concentração das fábricas se deu na região centro-sul do Brasil, primeiramente no Rio de Janeiro que era a maior praça financeira, tinha o maior mercado, a maior força de trabalho e o primeiro porto exportador; depois da década de 20 passou para São Paulo. As principais indústrias têxteis estavam no Rio de Janeiro, em São Paulo as principais indústrias surgiram no interior, ligadas à atividade cafeeira. O universo brasileiro era agrário e as indústrias eram ilhas dentro deste universo.

A composição étnica pesava devido à grande pluralidade de etnias existentes no país, o Rio de Janeiro era uma cidade portuguesa, São Paulo se formou com o italiano sendo seu elemento predominante. A diversidade levava à importação de ideologias, as diferenças culturais eram grandes e existiam as rivalidades étnicas, mas a classe suplantou a etnia devido à consciência de classe que se formou.

Em São Paulo entre 1890 e 1920, os censos apresentavam dados não muito confiáveis, mas indicavam que 58% dos trabalhadores eram estrangeiros. As classes que se formaram no Brasil, na época, tiveram influência de três correntes ideológicas do movimento operário: o anarquismo; o trabalhismo carioca e o positivismo.

O anarquismo formava uma corrente revolucionária, com diversas correntes internas, no Brasil uma das mais importantes foi a anarco-sindicalista. O anarquismo era um movimento nascido com a I Internacional (1864-1876) na Europa e até a Grande Guerra, em suas diferentes formas foi uma das principais forças do movimento operário internacional, no Brasil esta corrente era formada principalmente de imigrantes que entendiam a greve como um exercício revolucionário que deveria culminar na greve geral revolucionária.

Consideravam o sindicato como base do núcleo anarquista, nele estaria o futuro do grupo, ultrapassando de certa forma a luta sindical propriamente dita. Existia também a corrente prudoniana que se organizava em comunas e a anarco-politivista que pregava a apropriação dos meios de produção.

Os anarco-sindicalistas usavam a organização sindical para promover greves e lutar contra os patrões. A própria organização sindical entrava em contradição com as idéias anarquistas, que pregava que não devia existir qualquer tipo de organização, davam ênfase à luta econômica em oposição à luta política e eram considerados por alguns outros grupos anarquistas como reformistas, mas não revolucionários. Eles tiveram mais facilidade em conseguir adeptos, porque ao contrário de outros movimentos não insistiam na integração do imigrante e na adoção da cidadania brasileira.

Os anarquistas, que tiveram uma ação mais expressiva entre os trabalhadores do Rio de Janeiro, terminaram fluindo para o comunismo e se extinguiram como corrente independente.

O trabalhismo carioca era um sindicalismo de resultados, lutavam por melhores condições de trabalho, não pretendiam acabar com o Capitalismo nem fazer a Revolução. Gerou o sindicalismo amarelo que comumente tinha seus membros denominados de forma pejorativa de "pelegos", porque praticavam a política de acordo com os empresários.

Baseados no sindicalismo carioca foram criados alguns partidos operários todos apelando às elites, para que reconhecessem o papel dos partidos operários no desenvolvimento da nação, três destes partidos se destacaram: o criado por Gustavo de Lacerda, avô de Carlos Lacerda, era um dos poucos que lutava pelas conquistas operárias; o de Luís França e Silva e o de José Augusto Vinhaes, que era apoiado pelos funcionários da Estrada de Ferro Central do Brasil. Todos eram contra a greve e preferiam a ação política para o enfrentamento das questões sociais, propondo a arbitragem de um Tribunal composto de operários e empregadores, para resolver os conflitos de trabalho.

Os positivistas queriam incorporar a classe operária numa liderança do déspota esclarecido. Em 1913 foi organizado um Congresso Operário, no Rio de Janeiro, pelo filho de Hermes da Fonseca, Mário Hermes e Palmiro Serra Pulquerio, cuja pauta continha entre outros itens: oito horas de trabalho; regulamentação do trabalho para mulheres e crianças; descanso semanal; indenização por acidentes e melhorias nas condições de higiene.

As reivindicações eram de melhorias nas condições de trabalho e a pauta foi levada aos parlamentares pelos operários, que lutavam por uma legislação que normalizasse as condições trabalhistas, mas esta legislação não cabia naquele momento por causa do liberalismo, que não admitia a existência de um contrato trabalhista.

A única legislação existente no país era a civil, assim qualquer conflito de trabalho tinha que ser resolvido pela Lei Civil o que, de fato, o transformava em caso de polícia. Os operários muitas vezes trabalhavam para o Governo e se aproximavam mais da classe média baixa do que do trabalhador de uma fábrica, ou seja, do proletariado.

No Rio de Janeiro predominavam os conflitos populares poli-classistas que envolviam a população urbana de forma geral. As greves operárias eram mais freqüentes em São Paulo.

Existia ainda o Socialismo expressado através do Partido Socialista, que era formado de um pequeno círculo com escassa penetração popular. Era composto de setores da classe média e pela intelectualidade, excluía os operários. O programa de reivindicações do 2o Congresso Socialista de 1902 contava de itens tais como: oito horas de trabalho; proibição de trabalhos de menores; limitação do trabalho de mulheres; divórcio e instrução laica. Em alguns itens as reivindicações eram coincidentes, mas existiam particularidades, os Socialistas eram anti-clericais e anti-religiosos.



Evolução do Movimento Operário

O movimento operário saiu de um quadro de debilidade do Século XIX, para um movimento de ascensão entre 1905 e 1908, quando ocorreu a primeira onda de greves principalmente em São Paulo. Em 1902 já havia ocorrido a primeira greve no Rio de Janeiro, numa indústria de sapatos e em 1906 ocorreu em São Paulo a maior greve de ferroviários do período da República Velha, a principal luta desta época era pelas oito horas de trabalho.

Em 1906 foi realizado o 1o Congresso Operário que decidiu criar a Confederação Operária Brasileira, posição defendida pelos anarco-sindicalistas, que prevaleceu sobre a posição dos socialistas que queriam fundar um partido político. Alguns consideram que antes deste havia ocorrido um Congresso em 1892 e outro em 1902, mas os anarquistas não consideravam estes dois como Congressos Operários.

Entre 1909 e 1912, o movimento foi de depressão, com as oscilações ocorridas na economia capitalista, que não foi uma característica apenas do Brasil, mas mundial, comprovando que épocas de crises não são propícias para o movimento operário.

Entre 1912 e 1917 foi o período de ocorrência de grandes greves, principalmente a de 1917 que parou a Capital do Estado de São Paulo. A Grande Guerra veio provocar uma interrupção do comércio e da atividade econômica, sendo desfavorável às reivindicações trabalhistas. O 2o Congresso Operário ocorreu em 1913, no Rio de Janeiro.

Desde 1917, o operariado se encontrava em acelerado processo de organização e com o fim da Guerra ocorreu um período de ascensão que foi desembocar em 1920, época áurea do movimento. A impressão que se tinha era que estavam sendo lançadas as bases de um poderoso movimento sindical, passou a existir uma maior articulação entre Rio de Janeiro e São Paulo, mas nesta época teve início a repressão sistemática aos movimentos operários, as greves passaram a ser seguidas de repressão policial e institucional. Os estrangeiros que participavam de greves se fossem identificados, como líderes, eram passíveis de deportação.

No Rio de Janeiro a Federação Operária do Rio de Janeiro – FORJ, empenhava-se na campanha contra a carestia de vida e a partir de fevereiro de 1917 multiplicaram-se os comícios, que apesar da proibição policial chegaram a quase cinqüenta até o fim de maio. A FORJ realizava um meticuloso trabalho de organização sindical.

O ano de 1918 nasceu sob o impacto da Revolução Russa, no Rio de Janeiro foi fundada a Aliança Anarquista do Rio de Janeiro dedicada à propaganda social e em 1o de março foi fundada a União Geral dos Trabalhadores – UGT para substituir a FORJ, que foi fechada pela polícia ainda em 1917.

A década de 20 simbolizou o momento de auge e declínio do anarquismo. Em 1922 foi fundado o Partido Comunista, quando ocorria uma crise ideológica dentro do movimento entre comunistas e anarquistas e a médio e longo prazo as lideranças comunistas superaram as anarquistas. Os comunistas tinham um projeto para o país associado a um Projeto Internacional liderado por Moscou.

Em 1922, após a revolta do Forte de Copacabana, foi declarado o Estado de Sítio que perdurou até 1927, dificultando qualquer tentativa de ressurreição da organização sindical e o antigo movimento operário não foi mais reconstruído.

Boris Fausto escreveu sobre este assunto na década de 70, para ele o movimento operário operou dentro de limites estruturais negativos, porque a ele faltava muita coisa principalmente uma classe operária, assim o movimento teve uma sucessão de derrotas em virtude das concessões não poderem ser legalizadas e institucionalizadas. O desfecho negativo após a época áurea teria sido determinado mais pela luta interna do PC, entre comunistas e anarquistas do que por causa da repressão.

Para Paulo Sérgio Ribeiro, aparentemente a violência demarcou a política de atuação do Estado em relação aos operários durante a República Velha, mas era preciso pensar que ela não se esgotou com a repressão. Nos anos de 1910, o Estado começou a fazer aberturas em relação à classe operária e nos anos 20 se tornaram mais freqüentes as tentativas de criação de uma legislação trabalhista, ao contrário do que faz crer a visão da Revolução de 1930, nem tudo nesta área teve seu início a partir dela.(4)

As negociações durante as greves eram feitas com os sindicatos mostrando que já havia alguma aceitação de sua existência, além disto, o Brasil assinou o Tratado de Versalhes, em 1918, após a Grande Guerra, no qual se previa que deveriam ser feitas legislações sobre o trabalho nos países signatários do Tratado. De fato algumas leis operárias foram aprovadas na década de 20 por setores mais combativos e foram feitas algumas conquistas como: a lei de acidentes de trabalho, em 1919; a estabilidade no emprego, pensão e aposentadoria dos ferroviários, em 1923; dos portuários, em 1926; regime de férias para os comerciários, em 1925; regulamentação do trabalho de menores, em 1927.

Também foram feitas tentativas de uma política sindical, durante o Governo de Artur Bernardes que entrou em contato com lideranças operárias e deu apoio a algumas associações e em abril de 1923 foi criado o Conselho Nacional do Trabalho. A legislação do Estado Novo organizou o trabalho, mas na verdade desorganizou o movimento operário e impediu as possibilidades de organização autônoma, instituindo o sindicalismo oficial e o corporativismo com a tutela do Estado.



As Classes Médias

No período da República Velha, a Classe Média nos países centrais era formada de: proprietários de pequenas empresas familiares que tinham a posse de seus meios de produção e pequenos comerciantes, acrescido de profissionais liberais. A tradição de grande propriedade fazia com que a pequena burguesia no Brasil não existisse em grande escala e, além disto, não havia no Brasil mercado interno.

No Brasil a Classe Média foi formada por três movimentos: a formação do Estado Nacional, que desenvolveu a burocracia; a expansão cafeeira com os pequenos produtores ligados à cafeicultura; o processo de industrialização com sua racionalidade, sua técnica, que necessitou de gerentes. A estes, podia ser acrescentado também a participação do capital financeiro.

Uma das características da Classe Média era de ser formada de trabalhadores assalariados fosse do setor público ou do privado e outra era de ser um conjunto de trabalhadores não ligados à produção. A Classe Média quando participava politicamente de algum movimento sempre estava atrelava a outro grupo, não se destacava por sua autonomia, na maioria das vezes se ligava à burguesia e se afastava do proletariado, porque tinha receio de sua proletarização, mas por outro lado sentia os efeitos da carestia e do arrocho salarial, porque vivia do seu salário.

No final do século XIX a crise da economia e o desenvolvimento do setor público favoreceram a absorção na burocracia civil e militar de grupos ligados à exploração rural. O desenvolvimento urbano, que se acelerou depois da Grande Guerra, provocou a expansão do pequeno comércio nos centros mais importantes do país, assim como de pequenas indústrias.

A Política dos Governadores provocou um inchamento dos aparelhos do Estado, cujos ramos absorveram um largo setor da classe média, fazendo surgir o "estado cartorial", sistema no qual o Estado exercia uma política de patronagem, assegurando apoio político em troca do emprego público.

O Tenentismo foi um movimento de Classe Média, porque os tenentes eram provenientes de famílias da Classe Média, mas fazendo parte do Exército se ressocializavam como seus membros. O Exército e a Igreja são chamados pelos sociólogos de "Instituição total" porque são leais à sua instituição antes de sua classe. O tenentismo foi um movimento de baixa patente, que não envolveu as altas patentes do Exército.

No Brasil as classes dominantes eram compostas de várias oligarquias regionais, de base sócio-econômica distinta: no Nordeste, puramente latifundiária, patrimonialista; em São Paulo, agrário-mercantil. Esses padrões diferentes de dominação geravam situações diversas de dependência da Classe Média, por isto se torna necessário considerar a diferenciação existente nas características sociais ou profissionais sob as quais apareceram em cada região os componentes da Classe Média, pois não se pode considerá-la com os mesmos padrões em todo o Brasil. Ela se diferenciava de acordo com o modo de vida e da exploração econômica, rural ou urbana.

Do ponto de vista político as revoltas rurais romperam com a ordem política liberal, a Revolta da Vacina também foi um movimento de rompimento, mas a Classe Média não participou de movimentos que rompessem com a ordem liberal porque ela era fruto desta ordem. A Revolução de 1930 foi uma dissidência dentro do Sistema Oligárquico.

O papel político da Classe Média na República Velha foi o de mediador, jamais foram capazes de promover transformações que pusessem em risco a dominação vigente, a oscilação da Classe Média podia indicar para onde a política tendia, contribuindo para a redefinição das alianças políticas dominantes.

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Os Movimentos Sociais no Campo: Canudos e Contestado

O Catolicismo Rústico, da colônia, existia porque as instituições da Igreja eram extremamente frouxas, misturavam aspectos da religião formal e uma tradição popular em que se mesclavam candomblé e tradição judaico-cristã messiânica, entre outras coisas. Esta religião rústica não obedecia à ortodoxia romana. Existiu também o sebastianismo, resultado da forma messiânica portuguesa, originário do desaparecimento de D. Sebastião em 1572 nos desertos do Marrocos e acreditava-se que ele voltaria com o seu exército, este mito se implantou no Brasil com a expectativa de que ele fosse o restaurador da justiça social.

Além das características religiosas, este catolicismo tinha seus aspectos temporais, com o desaparecimento do patriarcalismo surgiram laços mais modernos de relação: o coronelismo e as transformações por que passou a propriedade da terra, porque antes as pessoas viviam sob a proteção de alguém, de um senhor. Quem perdeu seus vínculos, devido à modernização do campo ou que teve um desencantamento com o mundo, foi encontrar nos beatos, do catolicismo rústico, a proteção de que precisava.

Havia também o conflito com a romanização da Igreja Católica, porque as populações eram religiosas e, no entanto, as manifestações populares eram reprimidas e as pessoas buscavam nos beatos o apoio que não encontravam na Igreja. A romanização foi a reação da Igreja às derrotas sofridas após a Revolução Francesa, com a laicização do mundo da política e da educação. A Igreja era contra os beatos porque eles batizavam, casavam e faziam milagres, colocando em risco sua autoridade.

A primeira figura que surgiu no sertão nordestino com as características de um beato foi Mestre Ibiapina, que tinha intensa militância religiosa, marcada pela fundação de várias casas religiosas. Ibiapina era tido como profeta e curador e vivia cercado de beatas.

Depois surgiu o Padre Cícero Romão Baptista nascido em 1844 na cidade de Crato, que morreu em 1934. Sua vida religiosa foi motivada por um sonho que Cristo havia lhe aparecido com seus discípulos. Foi para Juazeiro, Distrito de Crato, onde iniciou seu trabalho pastoral cultivando a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, baseado no fato que uma hóstia havia sangrado quando ele dava comunhão a uma de suas fiéis.

Era um padre dissidente, mas também um coronel que se envolvia em conflitos de terra e participava não só da política regional, mas também da nacional, atuou como árbitro em diversas disputas entre "coronéis" do Vale do Cariri, tomando partido direta ou indiretamente, através de seus homens de confiança e chegou até a beneficiar atividades de cangaço. Foi excomungado pela Igreja católica, mas mantinha com ela uma relação dúbia que interessava a ambos: a ele porque não queria romper de todo com a Igreja e a esta porque temia que ele se transformasse numa figura messiânica, porque ele gozava de grande prestígio e tinha muitos seguidores.

O Padre Cícero teve grande atuação na época da disputa entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa para a Presidência da República, a "Política das Salvações" no Ceará derrubou uma importante dinastia, a dos Accioly, mas ela se manteve no interior do Estado através dos "coronéis".

O Padre Cícero foi excomungado em 1930 e com a Revolução ele perdeu poder político e passou a viver discretamente até sua morte aos 91 anos de idade. Apesar de seu sonho-visão, que marcou sua atividade religiosa ser uma componente escatológica que passou a fazer parte da mitologia de Juazeiro, não de pode dizer que em Juazeiro tivessem ocorrido crenças do tipo de messianismo e milinarismo.

Outro beato importante foi Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antonio Conselheiro, que desde 1870 já pregava pelo sertão do Nordeste. A historiografia considerava este movimento como de fanáticos, criminosos e loucos, baseando-se na visão originária dos contemporâneos que registraram os fatos. Esta imagem vinha do racismo científico do século XIX, que pregava que a mistura racial gerava uma população degenerada e assim Canudos foi considerado uma aberração sob o comando de uma personalidade psicologicamente anormal.

Nos anos de 1950 foi encontrado o livro do Conselheiro: Tempestade que se levantou no Coração de Maria por ocasião do Mistério da Anunciação, com o qual se pode se certificar que Conselheiro era um homem que sabia ler e escrever, estando assim acima da média brasileira, não era um ignorante e ficou também comprovado não ser um louco, porque os exames de seu cérebro feitos na Escola de Medicina da Bahia comprovaram que seu crânio era normal sem qualquer traço de degenerescência.

Em 1877, Conselheiro fixou-se na região de Itapicuru onde, nas terras de uma fazenda, foi construído o Arraial de Bom Jesus. Em 1822, D. Luís, Arcebispo da Bahia, proibiu que Conselheiro pregasse nas Igrejas, mas as centenas de pessoas que o seguiam obedeciam mais a Conselheiro que aos Padres. Em 1893, Conselheiro se rebelou contra a cobrança de impostos passando com isto a transmitir uma imagem de um líder anti-republicano, que era reforçada pelo fato dele ser contra a separação do poder religioso do civil que foi efetivado pela República. Assim o movimento passou a ser alvo de repressão.

A primeira expedição enviada para combater Canudos, em 1896, era formada de 104 soldados e 3 oficiais do 9o Batalhão de Infantaria, mais o material bélico necessário, a quarta e última expedição era formada de 8.000 soldados sob o comando do General Oscar de Andrade Guimarães, com uma verdadeira máquina de Guerra, com o mais moderno equipamento que se dispunha. Em 22 de setembro de 1897 morreu Antonio Conselheiro e logo depois o arraial foi completamente arrasado.

Não há indícios de que Canudos tenha sido um Reino Escatológico e não havia socialismo entre eles, pois havia hierarquização. Segundo Euclides da Cunha o Arraial era composto de 5.200 casas e tinha uma população flutuante que poderia variar entre 20 ou 30 mil habitantes.

De maneira diferente dos dois casos anteriores, Contestado foi sem dúvida um movimento messiânico e milinarista, não possuiu um líder verdadeiro, uma vez que o suposto líder, o monge José Maria, similar a Antonio Conselheiro, que dizia ter sido eleito por Deus, morreu logo no início do movimento. A liderança do movimento era atribuída a D. Sebastião, Rei de Portugal, que deveria descer do céu com seu exército para lutar ao lado dos revoltosos. Não havia no local uma disputa por terra, eles defendiam a terra porque lá estavam enterrados seus antepassados que seriam ressuscitados quando D. Sebastião voltasse.

O movimento teve início no primeiro quartel do século XX, com a controvérsia a respeito das fronteiras entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, litígio já antigo, muito anterior à República. O Contestado, nome que foi dada à região, era palco de conflitos armados, mas nenhum teve as proporções da Guerra do Contestado, que teve com a questão dos limites apenas uma conexão acidental.

Em 1911, apareceu como sucessor de José Maria, Miguel Lucena de Boaventura, que dizia ser seu herdeiro e reuniu cerca de 2000 seguidores em Taquaraçu. Nos últimos dias de 1913, a cidade foi atacada por contingentes do Exército, da Polícia Militar catarinense e por vaqueanos, que eram civis engajados na repressão. Taquaruçu foi arrasada e seus refugiados foram se estabelecer em um novo arraial, Caraguatá, onde passaram a receber a adesão de muitos sertanejos e o movimento passou a se caracterizar por uma rebeldia clara, mais tarde eles tornaram a se mudar, desta vez para Águas Brancas.

Em 1914, quando o General Fernando Setembrino de Carvalho assumiu o encargo de chefiar as operações contra o movimento, a ação repressora ganhou dimensões sérias e organizadas, as vilas foram destruídas e os refugiados se instalaram no vale do Rio Santa Maria, onde formaram uma grande concentração.

A população do local vivia de festa e não se preocupava com a vida terrena, pois achavam que já estavam salvos, muito embora apresentassem traços igualitários sem hierarquia, a não ser religiosa, isto não queria dizer que eram socialistas. A população vivia de saques e o movimento se caracterizava por um caráter monarquista, mas não relacionado a D. Pedro II e sim a D. Sebastião.

A repressão ao movimento foi violenta e pela primeira vez, em 1914, após quase cinco anos de combates, foram utilizados pequenos aviões para bombardear a população, tendo morrido cerca de 20.000 pessoas. Os rebeldes chegaram a dominar 25.000 Km2 de terras e venceram sete expedições enviadas contra eles.

 

(1) - Lincoln de Abreu Penna. República Brasileira. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1999, pág. 85.

(2) - Sidney Claloub. Cidade Febril – Cortiços e Epidemia na Corte Imperial.

(3) - Nicolau Sevcenko. A Revolta da Vacina. Mentes Insanas em Corpos Rebeldes.

(4) - História Geral da Civilização Brasileira, Volume III, O Brasil Republicano, 2 – Sociedades e Instituições (1889-1930),
Capítulo IV. PINHEIRO, Paulo Sérgio. "O Proletariado Industrial na 1a República", pág. 137.



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