O Século XVIII A Superação de
Tordesilhas
A Descoberta do Ouro O Povo sob o Medo
das Invasões Francesas
O Rio de Janeiro passa
a ser Capital do Brasil
O Tempo dos Vice-Reis O Espaço Urbano do
Rio de Janeiro




O destino da Cidade do Rio de Janeiro, continuou no Século XVIII, a depender da dinâmica colonial portuguesa e dos conflitos entre as potências européias. Ao longo deste Século, o centro de gravidade da América portuguesa deixou de ser o Nordeste para se desviar em direção ao Sudeste e o Rio de Janeiro, desempenhou papel importantes neste trajeto, passando a ser a principal cidade brasileira.

Teve um importante papel militar, pois a partir dele os portugueses colonizaram o Sul do Brasil e
dirigiram suas hostilidades aos espanhóis do Rio de Prata. Mas teve um papel econômico, que complementou
sua importância, devido ao seu vínculo com a Região das Minas e a descoberta do ouro e diamantes,
tendo se tornado o depositário das riquezas da Colônia e da Corte.


O Rio de Janeiro sob a Influência da Estabilidade Européia

O Século XVIII teve seu início marcado pela rivalidade franco-britânica, com a Inglaterra se impondo nos mares e no mundo ultramarino e a França enfrentando seu declínio no poder continental, porque as questões coloniais pesavam cada vez mais na influência e poder das grandes potências.

Portugal e Inglaterra eram aliados desde antes dos tempos modernos e esta aliança foi reforçada após a Restauração em 1640. Em virtude desta aliança, Portugal não podia ficar afastado da Guerra de Sucessão da Espanha (1701-1713), que envolvia a França e Inglaterra. Um fator preponderante que pesou na decisão de Portugal foi a segurança das rotas marítimas e comerciais das colônias lusas, principalmente no Atlântico.

O Rei D. Pedro II (1667-1706) aderiu à Grande Aliança que uniu Inglaterra, Áustria, Holanda e Principados Alemães no apoio ao Arquiduque Carlos da Áustria para herdeiro de Carlos II da Espanha, contra a França que queria impor um Rei Bourbon no trono espanhol. A adesão portuguesa favorecia seus interesses marítimos e imperiais em troca de vantagens comerciais, políticas e militares que os aliados lhes ofereciam.(1)

A adesão de Portugal à Grande Aliança se por um lado fez com que ele ganhasse a proteção da Inglaterra, por outro foi também a causa do estabelecimento de uma sistemática de ataques movidos por corsários de diferentes nações aos domínios ultramarinos portugueses, principalmente dos franceses. A região estratégica do Rio de Janeiro, que era uma das jóias preciosas da Coroa Portuguesa, não podia ficar de fora do alvo dos ataques franceses e entre as várias incursões realizadas à região no início do Século XVIII, duas tiveram particular destaque devido ao caráter lesivo que teve para a Metrópole: a de Duclerc, em 1710 e a de Duguay-Trouin, em 1711.

O Tratado de Utrecht, assinado em 1713, terminou com a Guerra de Sucessão e o trono espanhol foi ocupado por um Bourbon, mas apesar disto a França perdeu sua influência nos mares devido ao crescimento do poderio marítimo da Inglaterra. Desta forma se redefinia o equilíbrio europeu com a Inglaterra ocupando o principal posto, uma vez que se beneficiou com os Tratados realizados com as potências perdedoras: França e Espanha e com os acordos estabelecidos com Portugal pelos Tratados de Menthuem.

Com o equilíbrio estabelecido em Utrecht, o mundo colonial passou a ter um peso significativo no equilíbrio europeu e Portugal, através da aliança com Inglaterra, conseguiu a sobrevivência do Reino Ibérico como nação colonizadora e assim atravessou o Século XVIII, mantendo sua posição diante das rivalidades coloniais anglo-francesas.(2)

Após o Tratado de Utrecht, as potências européias atravessaram um período de paz, que durou até 1740, enquanto se intensificava a concorrência colonial, mas com os conflitos surgidos com a sucessão dos tronos da Polônia entre 1733 e 1748 e da Áustria entre 1740 e 1748, o equilíbrio foi quebrado. A partir de 1750 com a Revolução Diplomática, as alianças se modificaram, deixando de um lado França, Espanha e Áustria e do outro Inglaterra e Prússia, o que deu origem à Guerra dos Sete Anos (1756-1763).

D. João V (1706-1750), que sucedeu D. Pedro II em Portugal, tentou manter-se fora dos conflitos e da tensão política internacional, gerada pelas rivalidades franco-germânicas. D. José I (1750-1777), que sucedeu D. João V, não teve como fugir da tomada de posição e os sólidos e antigos laços que uniam Portugal e Inglaterra prevaleceram. Portugal foi invadido em 1762 pelo exército franco-espanhol, mas em 1763 foi firmado, em Paris, o Tratado que pôs fim à Guerra dos Sete Anos. O Governo de D. José foi de grande importância e marcou um período de prosperidade para Portugal e nela teve destaque uma figura das mais importantes da Coroa, o recém empossado Ministro dos Negócios do Reino de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Mello, que viria a ser o Marques de Pombal (1699-1782) e que na época era o Conde de Oeiras.

A Guerra dos Sete Anos, não poderia deixar de envolver a colônia portuguesa na América do Sul, uma vez que as atividades de corso se intensificassem e as disputas entre Inglaterra e França fizeram com que o Rio de Janeiro mais uma vez fosse alvo dos franceses. Em julho de 1757, novamente a cidade viu uma esquadra francesa, comandada pelo Conde de Ache, entrar na Barra da Baía de Guanabara. O então Governador e Capitão General do Rio de Janeiro e das Minas - Gomes Freire de Andrada – o Conde de Bobadela (1733-1763), estava em missão no sul do país e foi substituído por seu irmão José Antonio Freire de Andrada que na época estava na Região das Minas, arrecadando tributos e havia deixado em seu lugar o Tenente-Coronel Manoel Figueiredo.

A frota, no entanto, estava a caminho da Índia, para atacar os ingleses, e havia sido preparada por Luís XV e pelas Companhias das Índias Orientais e não pretendia atacar o Rio de Janeiro, pois Portugal, na época ainda não havia aderido à Guerra contra os franceses, mas depois da experiência de 1711, o medo em relação a abordagens de navios estrangeiros, principalmente franceses, deixou a população e as autoridades em alerta para com os visitantes.

Neste período muitas cartas foram enviadas à Corte pelos súditos fluminenses pedindo que a segurança da cidade fosse reforçada para a eventualidade de uma invasão estrangeira. O Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, diante da situação não podia desconsiderar o temor existente na cidade, cujos habitantes ainda tinham em mente os sofrimentos resultantes dos ataques sofridos na década de 1710 e o fato do Governador se achar ausente tornava a situação muito mais crítica.

Oque contribuiu ainda mais para agravar o clima de medo existente na cidade foi o fato de que naquela época, já se sentia o efeito causado pelo ouro encontrado na região das Minas e o Rio de Janeiro já havia se tornado depositário de um imenso tesouro proveniente desta região, o que iria fazer com que ele se transformasse em um importante centro de Comércio e uma preciosidade das mais importantes da América Portuguesa e isto não poderia deixar de despertar a ambição de outros países.

Para o Conde Oeiras não havia a menor dúvida, a perda do Rio de Janeiro significaria a perda de todo o Brasil, porque o Rio de Janeiro, era a moeda de garantia que Portugal tinha para se manter no cenário das articulações e conflitos que marcavam a hegemonia européia durante o Século XVIII e Portugal não queria ser excluído deste cenário. O Conde deixou um conjunto de documentos onde demonstra a preocupação que o dominava, em relação ao assédio sofrido pela cidade e seu receio sobre o que poderia ocorrer caso este problema não fosse seriamente enfrentado.

Em virtude deste fato não deve ser visto com surpresa a ordem dada pelo Conde, em 1758, ao Governador Gomes Freire de Andrada, para que ele deixasse com urgência os campos de batalha e as difíceis negociações de limites no Sul do Brasil, porque motivos não faltavam para temer o destino que teria a cidade. Suas ordens eram para que assim que chegasse reparasse e municiasse as fortalezas com a maior rapidez possível.(3)

As preocupações do Ministro não eram sem fundamentos e de fato ainda no contexto da Guerra dos Sete Anos, o pior esteve para acontecer à vida da cidade. O projeto francês, segundo Maria Fernanda Bicalho, é pouco mencionado na Historiografia, mas representou uma grande ameaça:

"previam o estabelecimento de um Vice-Reino francês no Brasil com perspectivas mais ou menos duradouras, ao contrário do que ocorrera mais de cinqüenta anos antes, quando se efetivou a expedição de corso comandada por Duguay-Trouin."(4)

Esta situação se configurava diante das vitórias obtidas pelos ingleses nas antigas possessões francesas da América do Norte e das Índias Orientais, Luís XV queria então contrabalancear suas perdas e para isto escolheu terras do Brasil, que além de pertencer a um Monarca aliado à Inglaterra era uma colônia de grande importância, cuja posse redundaria em grande perda para Portugal e também para a Inglaterra e que daria à França um importante trunfo nas negociações que seguramente iriam se realizar com o fim da Guerra.

O grande estrategista da expedição seria o Conde D’Estaing, que defendia o ataque ao Rio de Janeiro e não a Salvador, porque era onde se acolhiam as mais ricas e importantes frotas portuguesas. Se a invasão fosse feita a Salvador o Rio de Janeiro poderia ser avisado e se preparar para reagir, mas sendo o contrário, Salvador cairia com facilidade. D’Estaing deveria ocupar o cargo de Vice-Rei francês no Brasil e recebeu sua provisão em 16 de outubro de 1762, era um profundo conhecedor da dinâmica política, administrativa e militar da Colônia portuguesa.

Este planejamento, apesar de muito bem concebido não foi realizado, porque a paz foi restabelecida, em 1763, antes que os invasores franceses saíssem do Porto de Brest.

Assim embora travada na Europa a Guerra dos Sete Anos teve suas conseqüências refletidas nas Colônias, principalmente nas pertencentes aos países ibéricos, que se mostravam vulneráveis aos efeitos da Guerra. Portugal viveu um período de grande perigo para sua principal Colônia, o Brasil e ainda como resultado desta Guerra, outro fato teve grande importância para a Cidade do Rio de Janeiro: A TRANSFERÊNCIA DA CAPITAL DA COLÔNIA DO BRASIL, DE SALVADOR PARA O RIO DE JANEIRO, EM 1763.



 

(1) - Neste contexto é que se inseriram os Tratados de Menthuem assinados em 1703: um de natureza política e diplomática que causou o rompimento de Portugal com Luís XIV e o outro de natureza comercial que estabelecia vantagens para os tecidos ingleses em troca de benefício para o vinho de Portugal na Inglaterra, de acordo com MACEDO, Jorge Borges de. História Diplomática Portuguesa – Contrastes e Linhas de Força. Estudo de Geo-Política, Lisboa, Instituto de Defesa Nacional apud BICALHO, Maria Fernanda. A Cidade e Império – O Rio de Janeiro do Século XVIII, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003, nota 3, página 78.

(2) - Fernando Novais. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Regime Colonial – 1777-1808. São Paulo, Hucitec, 1979, página 43.

(3) - AHU, Códices 565, N. 14, e 565, N. 15. Foram emitidas pelo secretário de Negócios Ultramarinos duas cartas cujos conteúdos eram "secretíssimos", uma para o chanceler da relação do Rio de Janeiro, e outra para o próprio Gomes Freire. Nesta última o secretário ordenava ao Governador que deixasse o Sul, passando imediatamente ao Rio de Janeiro, logo após ter enviado o apelo das câmaras do Rio de Janeiro aos generais espanhóis, sem sequer esperar pela resposta; e que mandasse embarcações para recolherem as tropas do Sul, que deveriam voltar ao Rio, BICALHO, Maria Fernanda. A Cidade e o Império – O Rio de Janeiro no Século XVIII, nota 26, pág. 79.

(4) - Maria Fernanda Bicalho. A Cidade e o Império – O Rio de Janeiro no Século XVIII, pág. 69. Este livro fala com detalhes sobre este projeto nas pág. de 69 a 77 e em sua Nota 28, pág. 79, menciona que: "a documentação existente nos Archives Nationales de Paris sobre este episódio nos fundos Marine, B/4, 105 foi parcialmente transcrita por Escragnolle Dória, cujo manuscrito encontra-se no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, no Códice intitulado Documentos sobre os Franceses no Brasil. Em 1966, Enéas Martins Filho publicou na Revista do IHGB um pequeno estudo sobre esta documentação, com a finalidade de divulgá-la – RIHGB, vol. 272, julho/setembro de 1966."


Continua na página O SÉCULO XVIII - A SUPERAÇÃO DE TORDESILHAS
 




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