Villegagnon
A França Antártica
O Embate Europeu na
Guanabara
Carta de Villegagnon Escrita a João
Calvino em 31 de Março de 1557
De Gestis Mendi de Saa
Poema de José de Anchieta
Mapas da Guanabara no
Século XVI




Nicolau Durand de Villegagnon - Um Homem Universal

O homem que nos fins de 1555 se instalou na baía do Rio de Janeiro, procurando dar vida a uma colônia de moradores franceses que fosse, ao mesmo tempo, o núcleo de uma futura França Ultramarina - NICOLAU DURAND DE VILLEGAGNON, era, segundo um de seus mais importantes biógrafos, Paul Gaffarel: "um des personnagens les plus extraordinaire du XVIéme siecle."(1)

Gaffarel também o definiu como "un homme universel" dentro do típico espírito do século XVI, o homem dinâmico do Renascimento, voltado para todas as realidades da vida com espírito rico e multiforme e que foi por ele próprio intitulado: "Roy D'Amérique."

"Villegagnon foi um universitário de formação e um militar de temperamento, misto de homem culto e de aventureiro, interessando-se pelo Direito Cesáreo, mas veio a realizar-se como soldado e diplomata." (2)

Nicolau Durand de Villegagnon, nasceu em Provins, em 1510. Ele teve um preceptor de primeira ordem, que lhe inculcou uma sólida base educacional, dominando o latim, idioma mais importante da época. Quando seu pai morreu, em 1521, sua mãe o enviou para Paris para aprofundar seus estudos e ele seguiu a carreira jurídica, mas seus dotes literários e culturais o levaram a sonhar com feitos militares. Mas dificilmente teria chegado a sonhar que teria os favores de quatro Reis da França: Francisco I; Henrique II; Francisco II e Carlos IX; da Rainha da França e da Escócia, Maria Stuart; da poderosa Regente Catarina de Médicis e até do Imperador da Áustria e Rei da Espanha, Carlos V; apoios que o levou a ser estimado, protegido e festejado.

A propaganda da Reforma atingiu a França e espalhou-se atingindo os intelectuais e logo em seguida a nobreza, o povo acompanhava as idéias novas à distância. Várias cidades importantes aderiram ao protestantismo e João Calvino, que seguiu as idéias de Martinho Lutero, líder da Reforma contra a Igreja, veio a se transformar no verdadeiro papa do protestantismo francês e instalado na Suíça, em Genebra, se lançava fulminantemente contra os líderes católicos da época.

Villegagnon foi colega de João Calvino na Universidade de Paris e obteve o grau de Direito em 1530, sendo notório seu talento jurídico. Mas preferiu aos estudos, os ardores de uma vida de ação, entrando na Ordem Militar dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, com sede em Malta, destinada à proteção dos lugares santos da Palestina, da qual se tornou grão-mestre. A ordem era extremamente rica e possuía uma frota naval de fazer inveja a todos os reis católicos da Europa.

Em 1541 reuniu-se ao Exército de Carlos V, para combater os infiéis da Argélia, na África, como enviado do Rei francês, para observar os atos de Carlos V, que sonhava em transformar o Mediterrâneo em um lago espanhol. Nesta época, em suas conversas com Rabelais, quando se falava do país imaginário que o gênio de Rabelais inventara, a idéia de criar um novo país em novos mundos, estava presente na imaginação da Villegagnon. Em 1542, voltando à França, foi recebido como herói e agraciado pelo Rei com os privilégios do tamborete e da carruagem, duas das mais cobiçadas honrarias reservadas à nobreza.

Em 25 de julho de 1547, Henrique II foi coroado na Catedral de Reims, devido à morte de seu pai, com grande pompa, mas herdava um país arruinado. Como seu pai, era um homem de nobre presença, cheio de majestade, sério e honesto. Villegagnon gozava da simpatia de Henrique, mesmo quando era delfim e também de sua companheira Diana de Poitiers.

Assim, Villegagnon já possuía uma celebrada aura pela coragem revelada em vários sucessos, quando foi incumbido de conduzir à França a Rainha Maria Stuart, que era alvo da procura do Rei da Inglaterra, Henrique VIII e por este motivo era guardada no Castelo de Dunberton, na Escócia. Mais tarde Maria Stuart veio a se casar com Francisco II, filho de Henrique II e Catarina de Médicis. Finalmente para aumentar seu prestígio recebeu o cargo de Vice-Almirante de Brest e obteve grande notoriedade na defesa desse burgo marítimo. Assim era a vida de Villegagnon, cheia de grandes aventuras e de grandes sucessos.

Em 1552 uma nau retornou da viagem ao Atlântico Sul com valiosas informações do cosmógrafo e sacerdote André Thevet, franciscano de Angoulême, e do cartógrafo Guilherme Le Testu, valoroso capitão e piloto que conhecia os segredos do Atlântico, porque já o havia percorrido em todas as direções. No ano seguinte, foram escritas numerosas cartas, pelos viajantes, ao Almirante Gaspar de Coligny, principal Ministro de Henrique II, com informações sobre as terras visitadas. André Thevet era amigo de Villegagnon e com ele se encontrou em Blois e o deixou fascinado com os relatos das coisas maravilhosas de sua viagem.

Ainda em 1552, Henrique II assinou o Tratado de Chambord com os príncipes protestantes alemães e recomeçou a Guerra com o Imperador Carlos V, rompeu com Portugal e autorizou navios franceses a atacarem navios portugueses para se apossar dos produtos provenientes do Brasil. Da mesma forma que seu pai Francisco I ele tinha enorme interesse pelas aventuras de navegadores em terras estranhas. Com seu conhecimento foi preparada uma viagem exploratória ao Brasil composta de apenas um ou dois navios, sob o comando de Villegagnon, que havia terminado sua missão de fortificar o porto de Brest. A expedição seguiu direto para Cabo Frio, local de escala habitual de navios franceses e como sempre foram bem recebidos pelos índios Tamoios. Nesta viagem Villegagnon não chegou até a região da Guanabara, mas estava informado, através de André Thevet das muitas vantagens que a Baía oferecia para uma possível ocupação francesa, ele já havia estado nela duas vezes e sabia que os portugueses eram mal recebidos pelos índios da região, o que representava um fator decisivo.

Esta viagem foi confirmada por Chermont de Britto, que a descreve com detalhes, de forma fantasiosa e considera que dela participaram André Thevet e Guilherme Le Testu.(3) Leonce Peillard, que foi o mais recente historiador a escrever a biografia de Villegagnon, menciona que alguns historiadores consideram que houve uma segunda expedição de Villegagnon ao Brasil, logo em seguida à primeira, mas Peillard defende que não há provas desta expedição, que possivelmente não tenha existido.(4) Gaffarel menciona em seu livro, esta expedição de Villegagnon às terras do Brasil, mas considera que o testemunho que se tem dela é isolado e que não existem comprovantes desta expedição, que também não é mencionada em Jean de Léry e André Thevet.

Mas nesta época, o certo é que Villegagnon se incumbiu de convencer o Rei de estabelecer uma colônia francesa do outro lado do Atlântico: "em ce pays riche dont les habitants sont accueillants"(5)

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O Plano de Conquista da Guanabara

Villegagnon concebeu um ousado plano de fundar no Brasil a França Antártica, com o ambicioso desígnio de tentar expulsar os portugueses do Brasil e comerciar com a Metrópole, interferindo de forma agressiva no comércio marítimo com as Índias e tornando-se chefe incontestável de uma França Ultramarina. A iniciativa de tal empreendimento coube de fato a Villegagnon e houve consenso na Corte de encarregá-lo de chefiar a missão. Não existem dúvidas de que não houve resistência de Henrique II nem de seu principal Ministro, o Almirante Gaspar de Coligny, em entregar-lhe o comando. Os armadores de Dieppe apoiaram a expedição contando com os bons lucros que poderiam obter. O Cavaleiro de Malta era sem dúvida o melhor chefe possível, devido a sua bravura, preparo militar, experiência de luta no mar, inteligência e cultura superior.

João Calvino seguia sua campanha e enviava para a França pastores que estabeleceram Igrejas protestantes em diversas comunidades. Uma forma de pensamento ligado ao Humanismo e hostil à Reforma, tendo como membros Erasmo, Rabelais, Ronsard e outros tentaram opor-se ao Calvinismo e reconciliar o céu e a terra, tendo fé no homem sem deixar de ter fé em Deus, mas este movimento não impediu que até 1560, cerca de 18 milhões de habitantes franceses já fossem favoráveis à Reforma.

Ao final de 1554, o Rei Henrique II, ficou convencido da conveniência de executar o ousado plano de Villegagnon. O Almirante Coligny, foi seduzido com a promessa de que a França Antártica seria um refúgio para os calvinistas franceses que aspiravam a liberdade de religião. Ao Cardeal de Lorena, o Duque de Guise, prometeu Villegagnon o respeito pela doutrina da Igreja, convencendo-o das vantagens que haveria para a difusão do Catolicismo neste vasto continente que se abria ao futuro da França.

O Rei francês para não abrir um conflito com a Corte de Lisboa, oficialmente ignorava a empresa, mas protegia-a no segredo régio. A França desejava evitar o estado de guerra com Portugal, visto se manter em guerra com Felipe II, não havia vantagem em estender o rastilho de uma guerra, contra o outro reino da Península Ibérica. O Monarca concedeu a Villegagnon dois navios armados e 10.000 francos para as despesas da expedição e o material de guerra de que se julgava suficiente para instalação em terra firme. O recrutamento de tropas conseguiu formar um conjunto de voluntários, calculado em 600 pessoas, mas acredita-se que de fato o número real não ultrapassasse 400 pessoas(6).

Villegagnon recrutou voluntários nas prisões do norte da França, prometendo a liberdade a quem aderisse à empreitada, fato que iria lhe trazer muitas dificuldades, levava uma guarda pessoal de escoceses que lhe foi útil nos momentos difíceis. Com ele viajavam poucas mulheres com seus maridos, o que se constituiu uma falha grave no planejamento da expedição.

A expedição saiu de Havre em 6 de maio de 1555, contratempos obrigaram a uma parada em Dieppe para se fazer reparos em avarias sofridas pelos navios e após longa e perigosa viagem, a frota atingiu o Cabo Frio, em 6 de novembro e quatro dias depois penetrava na Baía de Guanabara, ancorando em frente de uma ilhota à qual deram o nome de Ratier, que hoje é denominada de Ilha de Lage. Contava Villegagnon com o apoio dos Tupinambás. Logo foi constatado que a ilhota não possuía condições de defesa e não era própria para construções, portanto os franceses transferiram-se para uma ilha vizinha, a Ilha de Serigipe, a atual Ilha de Villegagnon, que transformaram em reduto murado, com construções de armazéns, casas e fortificações. Na colina do centro foi erguido um castelo que recebeu nome de Forte de Coligny, em homenagem ao Almirante francês.

Fazia parte da expedição André Thevet, que escreveu um livro fascinante sobre a estada dos franceses na Guanabara que se tornou uma das fontes mais importantes sobre o episódio: As Singularidades da França Antártica, onde relata vários aspectos do Brasil da época: seus habitantes; seus costumes; religião e doenças, além de observações sobre sua fauna e flora. Assim descreve Thevet a chegada da primeira leva de franceses à região:

"Navegamos pelo espaço de quatro dias, até que, a dez de novembro, encontramos a barra de um grande rio chamado de Guanabara, pelos nativos (devido à sua semelhança com um lago) e de Rio de Janeiro pelos primeiros descobridores do local, situado a cerca de 30 léguas do nosso ponto de partida. Os ventos contrários que enfrentamos durante o percurso retardaram bastante nossa viagem. Depois de passarmos por numerosas ilhotas que bordejam o litoral e pela estreita boca deste rio, da largura de um tiro de arcabuz, achamos que seria interessante entrar nesta barra e ir para terra com nossos barcos. Fomos imediatamente recebidos pelos habitantes da maneira mais hospitaleira possível. Advertidos de nossa chegada, arrumaram-nos um verdadeiro palácio à moda da terra, todo alcatifado ao derredor de belas folas e ervas odoríferas, querendo os selvagens com isso representar sua satisfação, complementando-a com ostensivos sinais de alegria e convidando-nos a imitá-los nestas demonstrações de júbilo...
Assim, logo que chegamos e após os louvores e agradecimentos (dos quais um verdadeiro cristão não se pode esquecer). Aquele a quem ficamos devendo a paz que reinou sobre as águas e os ventos - em suma, a Quem nos propiciou os meios para que chegássemos sãos e salvos ao termo desta viagem... Este lugar localizava-se a 23 graus e meio a sul da Linha Equinocial, à altura do trópico de Capricórnio."(7)

Os franceses aceitaram melhor o nome indígena da enseada e para eles, a região passou a ser denominada Guanabara e não Rio de Janeiro.

As descrições feitas por André Thevet e também por Nicolas Barré,(8) que também fazia parte da expedição, em seus relatos sobre a chegada dos franceses à região da Guanabara, podem mostrar que os franceses tinham noção do local em que se encontravam, pois ambos mencionam a localização em relação ao Trópico de Capricórnio, mostrando o conhecimento geográfico de profissionais do mar e não de simples aventureiros. Outros destaques a serem considerados são: caráter religioso da ação dos participantes da expedição que tiveram como primeira atitude agradecer a Deus a chegada com sucesso e a relação amistosa existente entre os franceses e os nativos que receberam os recém-chegados com manifestações de amizade.

Além de Thevet e de Barré, que se tornou uma espécie de secretário da França Antártica e escreveu um pequeno livro sobre ela, viajaram com Villegagnon: seu sobrinho, Boissy, seigneur de Bois-le-Comte; dois beneditinos, conhecedores de botânica e um índio tabajara, intérprete da expedição que havia ido para a França alguns anos antes e se casara com uma francesa, mas sua língua era diferente da falada pelos tupinambás e ele foi preso e comido pelos índios. André Thevet permaneceu pouco tempo na Guanabara, uma enfermidade obrigou-o a retornar à França, para tristeza de Villegagnon, em 14 de fevereiro de 1556.

Na região da Guanabara existiam diversos normandos desertores de outras viagens e que viviam com os indígenas e já falavam fluentemente a língua tupinambá, assim não houve falta de intérpretes para os franceses. Villegagnon fez grande esforço para aprender o tupi o que facilitou seu contato com os habitantes da terra, principalmente com o cacique Cunhambebe, que se tornou seu amigo.

Os indígenas receberam os franceses com entusiasmo, oferecendo-lhes mantimentos e demais auxílios, achavam que os franceses eram amigos, de forma diferente dos portugueses, que diziam querer submetê-los a força. Mas não tardaria a se arrefecer o entusiasmo e os franceses tiveram que lutar para não morrer de fome quando os índios não mais lhes trouxeram seus produtos.

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A França Antártica e seus Conflitos

O estabelecimento de Villegagnon no Rio de Janeiro não teve o caráter odioso de uma conquista em relação aos indígenas, os franceses chegaram como aliados e receberam dos Tamoios, provas de júbilo e afeição. Os franceses não tiraram os índios de suas tabas, se estabeleceram em uma Ilha até então abandonada e Villegagnon se mostrava severo com as infrações cometidas contra os nativos. Esperando que mais dia menos dia seriam atacados pelos portugueses, adestraram os selvagens no manejo das armas tornando-os excelentes soldados.

Quando a França Antártica estava sendo implantada, a região da Guanabara estava vendo terminar uma guerra entre os indígenas com a vitória dos Tamoios sobre os Temiminós do Chefe Maracajaguaçu, que habitava a Ilha dos Maracajás, que quer dizer "gato selvagem" e é atualmente a Ilha do Governador. Os Temiminós eram inimigos irreconciliáveis dos Tamoios e por isto se tornaram aliados dos portugueses. Os Tamoios se reuniram para dominar um extenso território que abrangia desde o Espírito Santo até o Planalto de Piratininga, onde havia sido fundado recentemente, pelos jesuítas, São Paulo. Os Temiminós derrotados tiveram que recuar e foram habitar a região do Espírito Santo, a convite de Vasco Fernandes Coutinho.

Villegagnon enfrentou na Guanabara três grandes problemas, que não foram avaliados seriamente na preparação do empreendimento: a qualidade dos homens que conseguiu como voluntários para a viagem, que embora tivessem habilidades como artesãos e fossem operários eficientes, eram indisciplinados, de mau caráter e não queriam trabalhar, além de terem sofrido diversas enfermidades em virtude da diferença do clima da terra; o fator sexual que envolveu os tripulantes, quase todos jovens e que ao chegarem atiraram-se às índias desnudas com a complacência de seus maridos e de Cunhambebe, que recebia presentes pelos favores concedidos pelas moças e por fim a dificuldade de aceitar a antropofagia indígena que por vezes levou-o a resgatar prisioneiros e se indispor com Cunhambebe.

O problema de mão-de-obra, foi resolvido com o auxílio dos indígenas que trabalharam na construção da fortaleza e mais tarde na construção das casas de Henriville, nome dado à cidade que se pretendia estabelecer na região entre o Rio Carioca e o Morro da Glória, atualmente Praia do Flamengo, em homenagem ao Rei Henrique II. Nesta região chegou a ser construída uma olaria, denominada pelos franceses de Briqueterie, que produzia tijolos para as construções realizadas na Ilha e em terra firme.(9)

Os outros dois problemas foram mais difíceis de solução devido à intransigência de Villegagnon, que deveria ter se manifestado mais conciliador com as aventuras amorosas dos franceses e com a antropofagia dos Tupinambás, no entanto não foi o que aconteceu.

Com poucos meses de estada na Guanabara, Villegagnon já podia reconhecer as dificuldades que teria de enfrentar, precisava de reforços para a sustentação do empreendimento com soldados disciplinados e mulheres para se casarem com os franceses e formarem família e uma verdadeira cidade, em Henriville. Em virtude de seus problemas, Villegagnon escreveu a Calvino uma carta de 31 de março de 1557, onde falava sobre as graves dificuldades que enfrentava e nela Villegagnon manifesta a desilusão que a terra havia produzido em sua alma, esvanescendo toda a sua esperança de glória e de triunfo.(10)

Apesar das boas relações existentes entre os franceses e os indígenas, na carta a Calvino, Villegagnon não mostra simpatia pelos selvagens e os descreve:

"como homens selvagens sem nenhuma cortesia e humanidade, diferentes em tudo dos europeus, sem religião, sem nenhuma noção de virtude ou honestidade, do bem e do mal e que ele se perguntava se não tinham caído entre bichos que tinham uma figura humana."

Em fevereiro de 1556, após a partida de Bois-le-Comte e André Thevet para a França ocorreu uma revolta na França Antártica, quando os revoltosos desejaram matar Villegagnon. Na carta a Calvino, ele cita esta revolta que conseguiu reprimir com severidade, depois de alertado por um dos conspiradores, graças a ação do grupo de escoceses que lhe faziam guarda pessoal. Bois-le-Comte viajou à França com o intuito de obter recursos para a colônia, mas não teve êxito em seu empreendimento, apesar de ter sido recebido por Henrique II e pelo Almirante Coligny.

Oano de 1557 foi marcado por um intenso comércio da França com a Guanabara, mas Henrique II não enviou à colônia os reforços militares e nem dinheiro para consolidar sua presença na região, devido ao fato do Estado francês não estar em condições, devido ao seu endividamento e por estar passando por uma grave crise financeira.

Nesta época os problemas religiosos na França se intensificaram, a perseguição aos huguenotes, como eram conhecidos os calvinistas franceses aumentou, o Almirante Coligny que se converteu à Reforma e era seu chefe, vislumbrou na França Antártica um refúgio para os perseguidos e divulgou que Villegagnon lhe escreveu pedindo recursos financeiros e que enviasse colonos protestantes para o Brasil, fato que jamais foi comprovado.

É um engano pensar que o estabelecimento da França Antártica representou uma iniciativa de calvinistas, se o apoio de Coligny tende a indicar esta direção, a empresa colonizadora seguramente não resultou nem dependeu apenas de tal apoio. Os jesuítas não acusam Villegagnon de querer instalar na Guanabara uma colônia calvinista e sua carta de 31 de março de 1557, não fala neste assunto, muito embora também não se mostre hostil aos calvinistas que chegaram à França Antártica um pouco antes, em 26 de fevereiro de 1557, pelo contrário parece satisfeito e esperançoso com os novos habitantes.

A frota que trouxe os calvinistas foi comandada por Bois-le-Comte que retornava à Guanabara, após sua missão na França. Nesta leva de franceses enviada pelo Almirante Coligny viajou Jean de Léry autor de uma obra importante e polêmica sobre a estada dos franceses na Guanabara: Viagem à Terra do Brasil, que mostra as dificuldades vividas pelos calvinistas e descreve a terra e os seus moradores. Thevet e Léry foram antagonistas implacáveis e Léry é considerado pelo historiador francês Arthur Heulhard um grande mentiroso. Vieram também na expedição: Jean Cointa que era luterano e que daria muito trabalho na colônia; Philippe de Carguilleray, Sr. de Du Pont, que era amigo de Coligny e que foi encarregado de recrutar as pessoas para a viagem pelo Almirante e dois pastores: Pierre Richer e o jovem Guillaume Chartier que era um estudante de teologia em Genebra.

Arthur Heulhard comenta sobre o fato de Coligny enviar calvinistas para o Brasil, da seguinte maneira:

"L' intervention de Coligny, dictée sans doute, par une souci de popularité, eut d'exertables fruits. Elle arruíne positivamente Villegagnon."(11)

Com a chegada dos calvinistas era de se esperar que a colônia ganhasse um ambiente mais harmônico, mas não foi isto que ocorreu e logo a discórdia se espalhou pela colônia. Os calvinistas logo de início estranharam a vida em condições tão simples e o fato de terem de trabalhar duramente e tiveram vontade de voltar à França. Villegagnon ficou na defensiva em relação ao Sr. de Du Pont que parecia ter vindo com o propósito de relatar ao amigo Coligny a situação da França Antártica. Léry em seu livro descreve que as relações com Villegagnon desde a chegada não foram muito amistosas e que as condições de vida na colônia eram muito precárias.

Jean Cointa, que era uma pessoa inteligente e culta era também dúbio, inconstante e tudo indica que foi um elemento perturbador da harmonia da colônia. Envolveu-se nas fatais questões teológicas ali suscitadas, ora inclinando-se à ortodoxia, ora abalado em suas crenças pela argumentação dos emissários de Calvino: Richier e Chartier. Foi ele talvez o maior causador das graves perturbações que comprometeram a sorte da colônia.

Cointa incitou Villegagnon a abrir a perigosa polêmica da discussão religiosa, abjurou a religião católica fazendo-se protestante. Argumentador convincente, não tardou a discutir questões de doutrina com os calvinistas. Revelava-se católico entre os protestantes e protestante entre os católicos. Estabeleceu total desacordo entre o Vice-rei e os genebrinos e exerceu influência no espírito irrequieto de Villegagnon. Por fim abandonou o Forte, retirando-se para o continente para viver com os selvagens, não ficando claro se por sua própria vontade ou por ser expulso da Ilha.

Por ocasião da Páscoa ocorreu um primeiro enfrentamento entre os católicos e os calvinistas, devido à oração proferida por Villegagnon que segundo Léry deixou entender que ele havia aderido ao calvinismo. A partir de então, em diversas situações não ficaram claras as tendências de Villegagnon, até que na Ceia de Pentecostes, ainda segundo Léry, Villegagnon declarou ter mudado de opinião em relação a Calvino: "declarando-o um herege transviado da fé,"(12) e a partir daí as relações com os protestantes se deterioraram completamente, devido à inconstância religiosa de Villegagnon e a desumanidade com que tratava sua gente, até que os calvinistas resolveram deixar a Guanabara. Para os calvinistas a atitude de Villegagnon era decorrência do fato de ter recebido cartas do Cardeal de Lorena censurando-o por ter mudado de religião.

Estudiosos da França Antártica como Heulhard e Peillard, consideram que os fatos não deviam ter se passado como narra Léry e que a consideração de que Villegagnon aderira ao calvinismo não passava de sua interpretação e não de uma realidade. Eles consideram improvável da parte de Villegagnon tal atitude e acham que em sua carta escrita a Calvino não demonstra qualquer mudança de sua fé e de ter renegado o dogma da presença de Cristo na Eucaristia. Eles também não acreditam que Villegagnon tivesse solicitado a vinda de calvinistas para o Brasil.

Mas a realidade é que esta questão fez com que a relação entre Villegagnon e os calvinistas se tornassem bastante difíceis. Em outubro de 1557, o Sr. de Du Pont informou a Villegagnon que tentariam embarcar na primeira oportunidade e deixaram o Forte indo se instalar em casas feitas pelos indígenas perto da olaria, mantendo boas relações com os Tupinambás.

Em 30 de novembro de 1557, Villegagnon escreveu uma carta ao Duque de Guise, na qual não menciona as graves divergências existentes com os calvinistas, o que parece estranho, uma vez que os Guises estavam entre os maiores líderes católicos da França.(13) A vacilante conduta de Villegagnon, ora a favor dos católicos, ora a favor dos calvinistas, refletia a indecisa política dos bastidores da casa dos Valois, que reinava na França e que procurava uma forma de coexistência pacífica entre católicos e protestante, para evitar uma convulsão interna.

Em 4 de janeiro de 1558, os calvinistas partiram para a Europa no velho navio Jacques em sua última viagem. Villegagnon não tomou nenhuma atitude contra os calvinistas e no entanto tinha poderes para prendê-los e julgá-los, ao contrário deu ordens para que eles fossem auxiliados em tudo que precisassem. Depois de uma dura viagem, eles chegaram ao porto de Audierne em 24 de maio de 1558, região em que Villegagnon era muito respeitado.

A partida dos calvinistas marcou o fracasso do Vice-reinado da França Antártica. Mesmo não se conhecendo profundamente os acontecimentos sabe-se que Villegagnon tornou-se vingativo, perverso e de uma ferocidade muito grande, fazendo com que parte da guarnição fugisse da ilha deixando-o quase despovoada, mas Villegagnon continuava a ter esperanças de que receberia os reforços de que precisava, mas eles não chegaram até o ataque dos portugueses em 1560.

Na França logo que chegaram, no entanto, os calvinistas fizeram uma violenta campanha contra o Vice-rei e chegaram a dizer que ele pretendia formar uma dinastia com a filha do cacique Cunhambebe, a bela Jaci, fato que foi negado por Villegagnon que havia feito voto de castidade como Cavaleiro de Malta.

As notícias que chegaram à Guanabara alarmaram Villegagnon que chegou a pensar em viajar à França, mas não o fez e acabou sendo chamado por Henrique II para dar explicações, fato que não está comprovado e alguns historiadores defendem que ele viajou por conta própria para pedir auxílio. Em 1559, Villegagnon deixou a Guanabara rumo à França e não mais voltaria ao Brasil.

André Thevet, segundo Chermont de Brito, afirmou que:

"Villegagnon foi chamado à Paris por ordem expressa de Henrique II, que se indignou, vivamente de saber que os infames calvinistas se empenhavam com tanto ardor em destruir o herói da guerra da Inglaterra, que trouxera para a França a Rainha Maria Stuart. Esta afirmativa está em seus livros, que em manuscrito, são conservados religiosamente na biblioteca de Paris."(14)

Ao chegar à França teve notícia do falecimento de Henrique II e verificou que o Ministro Gaspar de Coligny havia se tornado seu inimigo declarado. Contou com o apoio de amigos como o Rei Francisco II e a Rainha Maria Stuart, além do Duque de Guise e conseguiu provar sua inocência e boa-fé, mas não teve tempo para voltar à França Antártica.

Villegagnon não deixou na Guanabara nada que se caracterizasse como formação de uma aglomeração humana que pudesse vencer as contingências e adversidades naturais da situação, que pudesse crescer e se tornasse uma vila, evoluindo depois para uma cidade.

Da França Antártica restou apenas o Forte de Coligny comandado por Bois-le-Comte, que ficou no comando, mas que se limitava a proteger o comércio do pau-brasil e da pimenta entre Tamoios e franceses, não era um homem dotado das virtudes militares e nem do bom senso de seu tio. Além disso, à fraqueza de Duarte da Costa que assistiu passivamente à presença dos franceses em terras da Coroa portuguesa, veio a suceder a enérgica habilidade de Mem de Sá, que tinha como propósito principal desalojar os franceses da Guanabara e das costas das terras do Brasil.

 

(1) - Paul Gaffarel - Histoire du Brésil Français au XVIéme siécle; Paris, 1878, página 139.

(2) - Joaquim Veríssimo Serrão. O Rio de Janeiro do Século XVI. Vol I, Lisboa, Edição da Comissão Nacional de
Comemorações do IV Centenário do Rio de Janeiro,1965, pág. 57.

(3) - Eduardo Bittencourt Chermont de Brito. Villegagnon - O Rei do Brasil. 2a edição, Rio de Janeiro, Livraria Francisco
Alves Editora S. A., 2002, págs. 115-126.

(4) - Leonce Peillard. Villegagnon, Vice-Amiral de Bretagne, Vice-Roi du Brésil. Paris, Editions Perrin, 1991, págs. 98-99.

(5) - Paul Gaffarel - Histoire du Brésil Français au XVIéme siécle; Paris, 1878, página 165, citando o testemunho de Claude
Haton, Mémoires, pág, 36.

(6) - Charly Clerc - Le Voyage au Brésil de Jean de Lévy; Paris, 1927, página 21, apud SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O Rio
de Janeiro do Século XVI
, Vol. I, pág. 59.

(7) - André Thevet. As Singularidades da França Antártica. Coleção Reconquista do Brasil, número 45, São Paulo, Livraria
Itatiaia Editora Ltda, Editora da Universidade de São Paulo, 1978, pág. 93-94.

(8) - Conforme carta de Nicolas Barré de 1o de fevereiro de 1555 publicada em GAFFAREL, Paul. Histoire du Brésil Français
au XVIéme siècle
, Paris, Maisonneuve, 1878, págs. 373-382.

(9) - A região de Henriville pode ser vista em "Isle et fort des François", planta panorâmica, de 1575, mostrando o ataque ao
Forte de Villegagnon, por Mem de Sá, em 1560, reproduzida in La Cosmografie Universale d'André Thevet Cosmographe du
Roy
, 2 tomos, cujo original pertence à Biblioteca Nacional, Divisão de Obras Raras e também em LÉRY, Jean de. Viagem à
Terra do Brasil
no mapa "La France Antarctique", após a pág. 80.

(10) - Carta de Villegagnon a João Calvino, escrita em 31 de março de 1557 em EXTRACTO, publicado na Revista do IHGB, 2:
2a ed. 200-204. Esta carta foi publicada em francês em GAFFAREL, Paul. Histoire du Brésil Français au XVIéme siècle, Paris,
Maisonneuve, 1878, págs. 392-397.

(11) - Arthur Heulhard. Villegagnon, roi d`Ámerique, un homme de mer au VXIéme siècle (1510-1572). Paris, Ernest Leroux,
1897, pág. 128.

(12) - Jean de Léry. Viagem à Terra do Brasil. Coleção General Benício, no 5, Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora,
1961, pág. 90.

(13) - Esta carta foi publicada no livro de Chermont de Brito, Villegagnon, rei do Brasil. Editora Francisco Alves, Rio de
Janeiro, 1985 e foi descoberta em 1929 no Arquivo de Michel Begon, ex-governador do Canadá no século XVIII. A carta
foi arrematada em um leilão em Londres pelo Almirante Max Justo Guedes e encontra-se no Espaço Cultural da Marinha
no Rio de Janeiro e está publicada em MARIZ, Vasco e PROVENÇAL, Lucien. Villegagnon e a França Antártica - Uma
Reavaliação
, Anexo no 4, págs. 165-167.

(14) - Eduardo Bittencourt Chermont de Brito. Villegagnon - O Rei do Brasil. 2a edição, Rio de Janeiro, Livraria Francisco
Alves Editora S. A., 2002, pág. 246.


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