Villegagnon
A França Antártica
O Embate Europeu na
Guanabara
Carta de Villegagnon Escrita a João
Calvino em 31 de Março de 1557
De Gestis Mendi de Saa
Poema de José de Anchieta
Mapas da Guanabara no
Século XVI

VILLEGAGNON - A FRANÇA ANTÁRTICA

DE GESTIS MENDI DE SAA - POEMA DE JOSÉ DE ANCHIETA


JOSÉ DE ANCHIETA, S. J.. DE GESTIS MENDI DE SAA PUBLICADO PELO ARQUIVO NACIONAL SOB A DIREÇÃO
DE E. VILHENA DE MORAES, 1958.
ORIGINAL ACOMPANHADO DA TRADUÇÃO VERNÁCULA PELO PADRE ARMANDO CARDOSO S. J.


O pranto dos cristãos.

Quem terá palavras para narrar a dor que pungiu os corações de todos? os gritos loucos das mães, aí! pobres mães! que tanto choraram os filhos perdidos! Soltas as tranças ao colo, arrancam de dor os cabelos, arranham com unhas crispadas as faces em pranto, e ferem de contínuo os peitos com os punhos cerrados. Também os filhos órfãos choram seus pais falecidos, o irmão lamenta a irmã que a morte roubou impiedosa, a irmã ao irmão assassinado barbaramente, a espôsa ao companheiro querido que a deixa viúva. Dão todos largas ao pranto e às muitas lágrimas juntam a indignação pela morte nefanda do Bispo. Lamentos, fundos gemidos e queixas sentidas enchem de longos rumores tôdas as casas.


"Quando haviam de ir castigar este caso, foi força acudir mem de Sá ao Rio de Janeiro."

Estava o Governador valente decidido a vingar-se dessas mortes cruéis e a domar o feroz inimigo com represálias: se maiores combates não o chamassem a outro campo. Maiores trabalhos pela honra de Cristo e pela conquista da verdadeira glória o esperam.

Longe dai, onde o Sul proceloso com chuvas freqüentes açoita as terras e os plainos imensos do mar turbulento, aonde chega o sol, completado quase o giro do ano e percorridos em seu carro de luz os signos celestes: os inimigos teem seus campos, voltados para as túmidas ondas do oceano, e numerosas aldeias junto às áridas praias, e outras muitas sitas ao ocidente, pouso, do Zéfiro, construídas ora nos campos, ora em meio de densas florestas. Estes provocam em guerra contínua os portugueses cujas povoações não distam muito das dêles. Aprisionam os homens traiçoeiramente, saqueiam as propriedades sem guarda, lançam o incêndio nos campos e cometem mil assassínios em freqüentes sortidas.


Influência dos Franceses.

Com êles tratam, ávidos do comércio da bárbara gente, os Franceses; trocam mercadorias, e com luzentes espadas, foices, anzóis, tesouras em grande número, amansam os corações ferozes dos índios e recebem em troca o pau brasil, que serve para tingir de vermelho as vestes, a acre pimenta, aves variegadas e os animais que imitam as maneiras humanas. De há pouco tempo, com o correr silencioso dos anos, erguem a cabeça altivos e arrastados pela cúbica querem para si o que os lusos com grande trabalho alcançaram. Movidos pois de furiosa coragem usurpam reinos alheios, fundam em altos rochedos fortaleza possante e a cingem tôda com armas. Mais ainda: com o coração infeccionado pela heresia, e com a mente opressa pelas trevas do êrro, não só todos se afastam do reto caminho da crença, mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas os míseros povos índios, de todo ignorantes.


Preparativos e viagem para o Rio de Janeiro.

O Governador prepara uma esquadra para expulsá-los das terras mal havidas: esquipa com armas luzentes muitas naus e as enche de escolhidos soldados.Chega o dia em que manda largar pôrto à esquadra: desligam-se as amarras e ouve-se a grita alternada com que disfarçam o trabalho penoso os marujos endurecidos às intempéries dos sóis e das chuvas. Uns puxam as cordas entesadas pelo pêso avultado e enrolam-nas no cabrestante ao passo que sobem: enfim aparece a âncora nas fortes mãos. Outros abrem as velas bojudas e erguem ao alto as antenas. Uns sobem à ponta dos mastros firmando, nos nós e nas redes das muitas cordas, as mãos e os pés. Outros seguram o leme com os braços robustos e todo o peito. Fora, o oceano rouqueja ao redor; dentro, entre clamores variados fervilha a faina. Para as plagas do Sul voltam-se as proas, enchem-se em bôjo as velas, ao sôpro do Norte assobiam as enxárcias estiradas, muge o mar sob o pêso das popas e a quilha calafetada rasga profundo sulco nas ondas.


Chegada ao Rio de Janeiro.

Finalmente junto às desejadas praias as popas deslisam, e de noite fundeiam no pôrto: presa ao cabo trazeiro a âncora denteada morde o chão e firma os navios. Quando a aurora envolta em seu manto de luz trouxe ao mundo o novo dia, eis que aparecem nos altos rochedos as torres soberbas, cingidas de tôda a sorte de armas, e as fortificações excavadas em vivo granito. Por acaso, nessa ocasião, os Franceses se achavam disperses pelas várias aldeias dos índios; poucos vigias guardavam a fortaleza. Ao avistar a esquadra, apavoram-se os guardas. Dá o toque de recolher a corneta estridente e a todos chama à fortaleza o sinal da fogueira. Daqui e dali acorrem todos e apressados se acolhem aos ninhos altaneiros, como fazem as pombas quando em dia cálido, ao sôpro do Norte, vagueiam pelos prados em busca do variado biscato campestre: Mas se o vento Sul se levanta e negrejain as nuvens e se entrechocam os nimbos e se ouvem os trovões reboando no céu escuro: então fogem rápidas, deixam os campos e, ruflando asas, se escondem nos pombais sossegados.


Captura da Náu Francesa e incêndio no paiol inimigo.

Uma náu francesa carregada de inimigos e armas estava surta no interior do porto sinuoso. Por ordem do Governador para lá se dirige pequena galé, que a ataca e rende: salvam-se apenas a nado os índios com os franceses acolhendo à praia. A nau rendida é ligada à popa da nossa: a fortaleza tenta impedir-lhe:a volta com projéteis incendiários e o monstro de ferro vomita suas bolas de fogo. Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares: antes, a pólvora explode no paiol inimigo e uma centela, e o fogo em turbilhão num momento envolve desprevenidos a sete.soldados. Infelizes! começam já a sentir as chamas do inferno em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem.


"Embaixada" de Mem de Sá.

Mas, viu o piedoso chefe que tal guerra só se faria a pêso de muito sangue preço de muitas cabeças. Compassivo, preferiu evitar a crueza,da guerra etenteando o caminho da paz, enviou ao general dos Franceses estes dizeres escritos num pequenino bilhete: "A fama, general glorioso, te canta como excelente em feitos prestantes, e longa experiência da guerra e também as belas artes tôdas te poliram a alma. Não creio pois que te hás de lançar a emprêsa tão árdua para defender uma causa injusta, contra todo o direito divino e humano, com a morte de tantos soldados. Essa terra que habitas é nosso domínio intangível: pois que a conquistou o trabalho esforçado dos lusos. Se te aprouver abandonar nossos reinos, de grado, como o ordena o nosso e vosso rei, será suprimida tôda a ocasião de -manchar. nossas dextras com sangue, e nada sofrerá por isso a tua honra de chefe. Doutro modo, decididos estamos a atacar sem piedade a fortaleza e a travar horrendo e cerrado combate, manchar as mãos de sangue e a tingir de vermelho as naus, os rochedos e as.praias brancas de areia. Fa-lo-ei contra a vontade, testemunha me seja Deus aqui presente: tu só darás conta tremenda do que suceder, no tribunal do Senhor. Responsável tu só o serás dos crimes, das ruínas e sangue que se derramar: do alto do céu nos contempla Cristo que um dia virá julgar-nos os atos da vida."


Resposta de Bois-le-Comte.

Às linhas do Governador, assim respondeu o Francês: "Qual seja melhor ou mais justo partido, ótimo chefe, não cabe a mim decidí-lo,é alçada daquele por cuja ordem habito os litorais do Brasil: foi êle quem me confiou a defesa do forte. Por mandado de Henriqueo soberano, a fortíssima tôrre, que vês, ergue a fronte até aos lumes celestes. Sem ordem do grande Francisco, a quem coube por dita o govêrno da França, que dirige os destinos da pátria de cetro ilustre na mão e coroa na fronte, jamais abandonarei essas muralhas que erguemos. Vive eternamente o supremo juiz do universo que pesa as culpas, de cada homem em rigorosa balança: Êle me guardará as mãos, puras de todo o atentado e livres de todo o sangue: tu vê bem a guerra que intentas. Temos grande soma de munição, espadas luzentes, artilharia possante, dardos incendiários e também armaduras para proteger os corpos afeitos a guerras contínuas. Tudo enfim está bem preparado: aqui estou eu a postos para defender os rijos muros da fortaleza. Vamos pois! prontos estamos para a defesa do forte!"

Esta a resposta que o chefe Francês remeteu ao herói. Que cega loucura, ó Francês altivo, que soberba tamanha, que incêndio de cólera te invadiu a cabeça? Rejeitas a paz que te oferecem? Com que auxílio confias conservar a vida? Cruéis batalhas te aprestam a morte, nem pouparão a pequeno nem grande. Tanta confiança te inspira o alcantil dêsse forte? Sim, mas não é fácil ao Senhor, desde seus fundamentos arrasar garbosas cidades e espatifar contra o solo altaneiras tôrres? Êle que sacode as muralhas do mundo e com um aceno aterra os firmamentos celestes?


Socorros de São Vicente.

Enquanto correm estas negociações de uma parte e de outra, o general português manda pedir à cidade, que se ufana do nome ilustre do Mártir Vicente, enviem reforços e tropas índias de auxílio. Inflamaram-se os corações: preparam ligeiros naus velozes e armas e, sem tardar, conforme o pedido, chegam, e com êles a flor dos guerreiros brasís, na mão esquerda o arco e na direita as rápidas flexas. Armado com o raio inflamado da palavra divina, vem também um da Companhia de Cristo Rei, para o soldado confessar suas faltas e lavar suas almas das manchas, antes de entrar no combate, onde talvez deixe a vida. O restante do povo os ajuda, erguendo preces ao alto; todo o sexo piedoso, com as crianças e os velhos, suplicam ao Senhor e aos Santos do céu a vitória. E que direi dos Jesuítas e dos ministros sagrados? Dia e noite, com fervor sua mente e seus lábios se voltam ao Pai celeste, ao Filho divino e ao Espírito Santo a quem se atribui igual louvor, igual felicidade, igual poder e igual glória nas moradas eternas. Pedem-lhe que os auxilie e dê aos nossos guerreiros a mais gloriosa vitória e o mais estrondoso triunfo. Foram êles, estou certo, que com seus gemidos e queixas comoveram os céus e lhes abriram as portas da graça; êles que, dardejando do peito ardente setas de fogo, moveram o Pai eterno a prostrar o inimigo, incutir-lhe terror e afugentá-lo para longe do forte.


Resolução intrépida de Mem de Sá.

Vinte vezes a aurora erguera ao mundo o manto de trevas. desdobrando sua púrpura sôbre o pálido rosto; O Governador prepara-se para o ataque do forte: reune o conselho dos chefes, ainda que saiba a relutância de todos. Diziam.êles que não era possível com armas algumas escalar o forte, cercado por rochas enormes, defendido por construções numerosas. Mas o chefe magnânimo tinha a peito acima de tudo propagar a fé. Apoiado na fôrça divina, sòzinho opõe-se a todos e não sofre que o dobrem discursos alguns: atira-se ousado contra o impossível e procura vencer os perigos da emprêsa que intenta: tal o rio, que lavradores represam com grandes barreiras de troncos e desviam para outras bacias, vai pelos campos vizinhos em regas estreitas, mas continua a lutar com esfôrço contra a reprêsa, até que, forte pela massa das águas, rompe a muralha e em turbilhão se alarga como vasto oceano.

Logo que se reuniram todos os maiorais em conselho, o governador expõe o desígnio que guarda no peito, e no meio da assembléia profere estas palavras: "Chegamos, senhores,. ao termo: estou enfim decidido a atacar a fortaleza altiva: bem sei a posição estratégica do lugar e as construções montadas de inúmeras peças, os muitos braços do inimigo e os Franceses postados a perder a vida ou salvar o forte a preço de sangue. Mas que são essas fôrças para a onipotência divina? Porventura é difícil'arrasar as tôrres mais altas ao, Senhor que a um aceno faz tremer o palácio celeste? Não é êle um homem para tremer perante batalhões de soldados embora cruéis: êle desconhece os terrores dos homens. Êle incutirá fôrças e ajudará compassivo a causa do justo e do fiel,,e com a dextra potente abaterá e esmagará o inimigo, castigando co’a morte corações ímpios, vazios da fé verdadeira. Confiados pois na fôrça do Deus invencível, lancemo-nos à grande emprêsa.para glória divina. Preceda-nos o estandarte fulgente do triunfo de Cristo, e a desejada vitória seguirá a bandeira da Cruz!"


Preparativos do combate.

Êsse grito que o chefe-arrancou.do peito ardoroso arrastou todos ao seu parecer: já o peito dos bravos se acende nó anseio das batalhas furiosas. Estuam as almas impacientes de ir arrasar as fortificações-francesas e entregá-las às chamas, ou generosas perder a vida em morte gloriosa pela causa santa da fé e da glória divina. O próprio chefe, conduzido em batel, passa em revista a todos e manda que as naus, avancem em ordem. Distribui os seus homens: que todos cumpram seu cargo e guardem seu posto, quando começar o combate e se atirarem à refrega. Então purifica sua alma das culpas e a fortifica com as armas de Cristo, caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado. Muitos imitaram o belo gesto do chefe e de coração sincero lhe seguiram o exemplo, purificando suas almas, manchadas de culpas.

Chegara o dia que veria as batalhas sangrentas de corpo a corpo, e de bandeira contra bandeira. Do alto da popa o almirante toca a trombeta os homens em entusiasmo ardente se erguem de um salto, lançam mãos à obra, arregaçam os braços robustos e com grande grita recolhem os cabos pesados para soltar a proa. Abrem as velas bojudas que a aura suave, vinda do vasto oceano enche imediatamente com o afago do sôpro. O sol volve seu carro de ouro ao completar a subida íngreme do céu. As proas em bico fendem as túrgidas ondas, em demanda das ameias da fortaleza inimiga.


Descrição de Villegaignon.

Há uma ilha pequena no meio da vasta baía que o mar rodeia, de tôdas as partes, de ondas: cercam-nas rochas e as praias do continente vizinho donde saem as naus que vão para o oceano através de estreitas portas, as quais divide uma lage pela metade. Aí outrora construíram um forte os Franceses: porém carregou-o a fôrça das ondas. Agora esta outra ilha ergue suas tôrres ferozes, forte por suas rochas inacessíveis, fervendo ao embate do mar furioso e gemendo ao som de grutas soturnas. Para o lado do ocaso se levanta pequena colina: uma que outra palmeira ao longe a cobre de sombra com seus verdejantes leques. Perto dessa colina está um alto rochedo talhado todo ao redor pelo picão tenaz. Em cima do esguio rochedo se eleva o baluarte altivo, prenhe de artilharia. Mais além há uma pequena altura e à sua direita uma cisterna, com casas dum lado e doutro, repleta de água. Bombardas numerosas defendem as estreitas veredas. Entre estas e a cisterna há enorme abertura, onde as ondas remugem espumando de raiva. Ponte de um pau dá estreita passagem por cima do abismo.

Transposta esta, do lado da aurora esplendente, depara-se um monte que parece subir às estrelas, com escarpas a pique em redor. É impossível subir por aí ao cume, ou descer de lá para o baixo. Um só caminho escarpado e estreito conduz à altura: talhou-o na pedra, à fôrça de golpes teimosos e muito suor, o duro picão dos Franceses. E protegeu-o com baluartes de alvenaria. No cume ergue-se a tôrre sob armação de grossos madeiros defendida por bombardas e pela estratégia do pôsto: o rochedo todo é inacessível e se lança às alturas qual gigantesca montanha e inexpugnável penhasco.


Ataque à colina das Palmeiras.

Assim pois os navios, turgidos de brisa os velames, vêm sulcando a planície do mar: em direção do oriente, jà volvem as naus maiores para, do meio das ondas, atacar a fortaleza com suas terríveis muralhas. Canoas velozes, prenhes de soldados e armas fulgentes, se arrojam contra o litoral crivado de escolhos e atacam a colina das palmeiras, onde os Franceses postaram inumerável guarnição de selvagens, para defenderem o pôsto afastando os esquadrões portugueses. Bem sabia o Francês que essa fortaleza altaneira só daí podia ser atacada, por flechas e balas. Mas de nada adianta às pobres fôrças humanas provocar o Onipotente: o chefe inspirado pelo alto manda volver à esquerda, que o Sol refulgente desperta quando sôbre os corséis da aurora deslumbra o oceano. Manda voltar velas às outras naus e tomar de corrida a praia para onde forte arroio corre de altas florestas e se mistura ao mar. Era para que o incauto inimigo, cresse nos apertava grande falta de água e enganado por essa, idéia abandonasse a colina. Foi um instante: apenas viu o bando inimigo que as naus a velas cheias voavam para essa abertura, precipita-se da colina em desordem e sobe às canoas ligeiras o deslisando no dorso das vagas ocupa o litoral sinuoso e em vertiginosa carreira se atira às torrentes marulhantes afim de poderem afastar das águas límpidas ou trucidar nossos guerreiros. Loucos! deveriam ter ficado no sitio marcado para afastar do acesso à colina os soldados intrusos, único pôsto que permitia o ataque do forte. Mas aguilhoada pela paixão infrene do sangue, a instável multidão em vão se arroja e furiosa e tresloucada vence o grande espaço de areia.


Tomada da colina.

Entanto, voltando as velas com o vento propício nossos barcos armados ferraram a colina das palmas. sem hesitar um momento, de tôdas as naus os guerreiros rompem, como chama de fogo, pelo meio das rochas, escalam de um salto a colina, ocupam-lhe os cimos, escavam fundas trincheiras e no alto do cume fincam vitoriosa a bandeira da cruz resplendente. Outros correm às naus e entre gritos possantes arrastam o falcão: num momento, eí-lo postado no cume a vomitar incêndios, da boca tremenda, e a arrojar pelouros, forçando a cantaria das casas.

Já as balas de ferro arrombam a casa e os madeiros se. desmoronam: responde feroz o Francês arrojando balas que zunem. Entretanto nosso bronze gigante atira globos encandescentes do navio fronteiro. Fere duas vezes a casa, abala-a tôda com fôrça, e solapa a grande mole: as vigas partidas desabam em ruína. Fogem os Franceses e pelos penhascos, seguros a cordas, apressados se escapam ao alto refúgio da tôrre.


Ataque à segunda colina.

Em grita, nossos valentes se precipitam do outeiro das palmas e seguem de vencida aos fugitivos. Ultrapassando as ruínas da primeira casa, se arrojam com ímpeto ardente à segunda colina. Ocupam as águas que a cisterna recolhe, defendendo-se num parapeito de terra elevada.

Entretanto trovejam horrendas as altas muralhas e com tiros tremendos espedaçam e arrombam os navios fundeados no meio das águas. O bruto canhão vomita em chamas pedras e balas e cobre o azul do céu de negra fumaça. O troar medonho acompanha o fogo incessante, ribombam os céus e gemem os espaços imensos, ringe a terra ao pêso do fragor horroroso, freme o mar mugindo em longo murmúrio. Dir-se-ia que todo o universo saltara fora dos eixos: tamanhos eram o estrondo, a grita e o fogo das balas!

Para o lado do áureo levante, estava postada junto de um baluarte uma bombarda de metal amarelo sôbre rodas de ferro. Da boca enorme, o monstro arrotava penhascos e balas de metal, molestando à vontade com tiros contínuos as naus: fere as popas e arromba um e outro flanco, estilhaça mastros e pranchas com fragor espantoso. Ora aponta a esta, ora àquela, e espedaça com um só tiro mortífero os corpos de muitos soldados. Os conveses se inundam de sangue. Já não mais podem as naus continuar fundeadas. Livres das amarras fazem-se ao mar avariadas.


Primeira noite e novos preparativos.

O sol mergulhara seu carro luzente nas ondas, e vesper desdobrara seu manto noturno de trevas e na abóbada celeste brilhavam mil luzes de estrêlas. Não se dormia no acampamento; cada qual preparava suas armas. Da colina das palmeiras o falcão continuava a bater o alto da tôrre, arrotando bolas de fogo. Ressoam vozes e gritos de mulheres nas casas. Manda entretanto o governador fortificar por inteiro o local do acampamento. Uns enchem de pedras e terra grades de vime, como trincheira ao fogo das balas. Outros retiram das naus os canhões e os arrastam com o fragor gigantesco de suas rodas pesadas, e os colocam em postos escolhidos erguendo em redor um parapeito de terra. Depois esperam impacientes as batalhas temerosas do dia seguinte.

Já os primeiros clarões afastavam as trevas da noite e a aurora tingia o mar com seus raios serenos, já o sol na orla do horizonte se lançava à corrida que espalharia mais uma vez a luz pelo mundo: quando refulgem no alto do monte as falanges francesas armadas de espadas e longas lanças; os corpos cobertos de reluzentes couraças. Armados de flechas aí se acham também.os selvagens que tinham voado à aguada, para derramar o sangue dos lusos, quando. nossas naus voltaram e deixaram as praias com as águas,. ajuntando-se aos -seus e enganando o inimigo cruel que nutria falaz esperança. Viram-se então enganados, fremeram terríveis em vão, acalentando cruéis desejos de novo vencem num vôo a praia já em vão percorrida e deslisam nas canoas ligeiras até conseguirem grimpar pelas.rochas espumosas ao alto da fortaleza. Nossas naus tentaram com balas estorvar-lhes o acesso: quanto preferiram êle subir à colina dás palmas!...


Primeiro embate indeciso.

Portanto, índios e franceses, multidão numerosa, atiram-se ao campo inimigo. Seus gritos abafam o rumor do oceano. Pressurosos lhes vêm ao encontro os outros. Travam-se de mãos. Ferve duro o combate de uns e de outros. Cortam o ar as flechas zunindo de parte a parte. Gemem os arcos ao golpe da corda, e a bala metálica sibila rente às cabeças. É um incêndio o ardor da luta. A terra se crava de inúmeras setas, o espaço imenso se tolda e o céu se cobre sob o denso granizo das flechas. Assim, depois que o Sul chuvoso deixou de regar campos verdes e bosques, e os ninhos pesados cessaram de provocar trovões; quando arde a atmosfera sob um sol causticante: sai das entranhas da terra a formiga, e, deixando os profundos lares maternos busca nova casa, pouco a pouco, junto das portas avulta o cicio, ergue-se -em enxame cerrado sôbre as quatro asinhas e libra-se nas auras ligeiras e forma densa nuvem sôbre nossas cabeças. De parte a parte voam nos ares as flechas velozes e o combate flutua daqui e dali, com sorte indecisa. Não cedem estes, nem aqueles recuam vencidos; nem estes arredam pé, nem voltam costas aqueles.

Finalmente, com os membros quebrados do longo trabalho e rendidos pelo esfôrço da luta renhida, afastam-se os dois exércitos de tácito acôrdo, êste para o- acampamento, aquêle para o, forte altaneiro. Entretanto, de um e.de outro lado, vomita chamas horrendo o canhão; voam incessantes as balas traçando riscos de luz, na densa fumaça, entre sons pavorosos. Ora é a bombarda inimiga que arromba o casco das naves, ora é o nosso canhão que fere a tôrre altaneira, partindo traves e parapeitos e portas e trancas.


Segundo combate.

Já o sol transpusera o zenite de sua carreira e volvia para o mar seus corséis apressados. Os Franceses, como não puderam num primeiro combate reconquistar em contra-ofensiva as águas perdidas, espumam de raiva e aguilhoados pelo retomam o combate, fiados em armaduras agora. Cingem o peito com a couraça luzente, e a:cabeça com o capacete. A mão empunha a espadas recurva e a veste de malha cobre o corpo de alguns dos maiores.

Assim armados, se precipitam da penha cercados pela chusma dos índios. Brandem as espadas que chispam ao sol fronteiro e cortam o ar com golpes freqüentes.Sem temor algum transpõem a estreira ponte de um tronco. Começa a chover denso granizo de flechas: sem cessar os inimigos distendem os arcos e os tiros. Crivam de inúmeras feridas as fileiras contrárias. Fúria de parte a parte, de parte a parte golpes tremendos. Mas os Franceses, com o peito protegido de rija couraça, já não combatem com dardos lançam mão tias espadas se lançam à luta e com ousadia se esforçam por afastar das águas, perdidas os arraiais inimigos.

Já as fôrças começam a faltar aos nossos, cansados de tanta peleja, já lhes nasce o desejo da fuga: largar aos Franceses- que avançam as águas tomadas. Eis senão quando um tiro de nossa bombarda arrebata a dois franceses encouraçados, varando de um golpe couraças e peitos altivos. Como que fulminados rolam estraçalhados no chão pernas e braços, e o sangue que salta tinge armas e pedras em volta. Fogem os outros arrastando os corpos despedaçados dos infelizes colegas e rápidos galgam o forte.


Desânimo e falta de pólvora.

Entretanto os cavalos do Sol. Relinchavam já próximos do pouso da tarde. Com a morte de muitos as naus se afastaram da terra. Não mais bombardeiam os muros da tôrre elevada: imenso cansaço prostrara os batalhões que pelejavam em terra, tão porfiosamente. Não há meio algum para-o cêrco do forte altivo, rodeado todo de íngremes rochas, peças de fogo, valentes franceses, e ferozes selvagens. Ademais um caminho reune grandes montes de pedras para prostrar e esmagar os soldados que tentem escalar a montanha:é esta a única senda de acesso ao forte. Quem ousará galgar tal muralha?

E eis que um cuidado maior acresce ao cansaço, surge um estôrvo que não podiam sequer esperar. Na guerra de mar e terra, gastara-se a pólvora tôda, êsse pó, que a mão do dextro operário fabrica de vivo enxofre, de negro carvão e de nitro, em grande fornalha, pó que alimenta a chama furiosa e aumenta de muito o poder dêsse elemento. Que farão dora em diante? com que fôrças o. forte será atacado, se o fogo mortal com golpe incessante deixar de derrocar as posições inimigas? contínuos cuidados vários começam a angustiar soldados e chefes. Com que estratagema se acolherão aos navios êles e os canhões, de tal sorte que o não sinta o inimigo? A dúvida e o medo de um grande desastre os oprime. Referve o anseio cruel no fundo de todos os peitos e a imagem do perigo já paira em todos os olhos.


Petição de auxílio celeste.

Então, como creio, o governador, no silêncio da angústia, arrancou do coração estas vozes queixosas, pedindo ao Pai celeste o auxilio que as fôrças humanas não lhe queriam dar. Com os olhos cravados na altura lançava para o céu estas palavras de prece: "Ai! porque nos entregas, supremo Criador do universo, sem recurso nenhum, aos últimos riscos da vida? Bem vês que nossas fôrças, rendidas por imenso trabalho, já não podem subsistir. Como podes deixar que sejamos o opróbrio do inimigo? porque há de o francês conspurcado pelo crime feio da heresia, insultar teus soldados cristãos e fiéis? A coragem nos abandonou por completo, não resta outra fôrça: compadece-te tu, senão perecemos! Olha, Pai Celeste, para os que carecem de todo o recurso. Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro a raça inimiga. Se soltares as rédeas à ira, o próprio espaço se armará de feixes de luzes, lançará em combate suas torrentes de dardos, e com a dextra oculta arrojará seus raios ferozes, incendiando do bôjo das nuvens o forte altaneiro. Vamos, apressa-te, corre em auxílio e levanta os que estão a cair; e aos povos selvagens e ímpios castiga-os! Experimentem o imenso poder de teu braço nossos contrários! enfim arranca dos perigos presentes o exército cristão que te ama e respeitoso te adora e por tua glória se atira às mais duras pelejas." Ouviu o Rei celeste estas vozes, ouviu juntamente as que os Jesuítas e povos fiéis nesse tempo arrancavam do peito, abalando com gemidos e prantos as portas do céu compassivo. Não houve demora.


O mêdo misterioso dos franceses.

Oh! quem pudera sequer imaginar de que modo haveriam os ferozes Franceses de abandonar um forte tão firme pela natureza e tão seguro pela arte da guerra? Mas, eis que Deus chama um ministro do exército alado e lhe manda afugentar os inimigos do pôsto altaneiro, insuflando-lhes o terror pelas trevas da noite. Cumprem-se as ordens: voa êle veloz pelas nuvens e segue-o de aspecto horrendo e impassível, esquálido e lívido, o terror: envolve-o um manto de sombras, e ruflam as asas negras pelos céus nevoentos. Apresenta duras feições, a morte sangrenta, cruéis grilhões com ranger de correntes e ferros, suplícios atrozes e castigos bem merecidos, incêndios vingadores prenhes de extermínio e de sangue.

Tal foi o monstro horrendo, miserável e feio que, às ordens forçosas do Senhor do universo, um ministro alado, membro da jerarquia celeste, lançou incontinente dentro das muralhas francesas.

Apenas o terrível temor transpôs os umbrais altaneiros da primeira porta, já todos de dentro começam a empalidecer; tremem, e pelos membros lhes coa gelado pavor. Em breve é a fuga por rochas e ondas. Sem demora, sem descanso: o temor agarra-se aos ossos. Parecia que o horror cercara saídas e portas, e logo, logo espadas vingadoras e dardos agudos e chamas devoradoras se comprimiam às portas. Tudo incute terror a essas mentes turvadas, e ameaça, aos valentes de há pouco, morte cruenta.


Fuga dos franceses.

Do lado em que o Sol se lança à corrida brilhante do dia, por rochedos abruptos, todos êles, agarrados em cordas, muito longas e armadas de nós numerosos, vão-se acolhendo a barcas e.através de ásperas rochas e de agitadas ondas buscam o litoral dos selvagens, deixando o forte erguido em formidável penhasco, construções descomunais e inexpugnável rochedo. Tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados! Nos aflitos arraiais lusos espalha-se em breve o boato da fuga pelos rochedos e abandono do forte.


Tomada do forte.

Erguem-se todos à pressa, com a ânsia de verem êsses muros desertos e atingem a parte mais alta do penhasco, e fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo. Pasmam da construção gigante, dos rochedos em roda todos a pique, protegendo em suas dobras edifícios recentes, dos escolhos em que o mar espuma horrificamente. O próprio governador, olhando todo êsse pôsto, que fôrças humanas jamais com arma nenhuma poderiam arrasar, do íntimo peito canta louvores ao Deus eterno, que tomou o monte e o forte altaneiro e com a fôrça de seu braço afugentou o inimigo.

Ó muito amado de Deus, ancião venerando, por quem batalham os astros da altura e pelejam o céu e os coros angélicos, a quem dos fortes celestes envia auxílio o Pai onipotente: tu, quando fôrças humanas não podiam trazer-te socorro, com tuas preces arrancadas do fundo do peito, atraíste aos -teus desejos o soberano do mundo, para apoiar teus.combates com sua fôrça divina. Eia, novo ânimo, ancião, no templo celeste terás por destino a glória, e os coros dos anjos te cingirão com a coroa de rei triunfante: depois de sujeitares a Cristo os litorais brasileiros e ensinares a venerar o nome santo de Cristo.


Despojos dos franceses.

Entram finalmente nas casas desertas. Dentro se achava número enorme de munições, cuja fôrça não poude segurar os Franceses. Mas não se encontrava ali a imagem da cruz resplendente, nem a dos santos que habitam o reino dos céus, por cujos merecimentos e preces o Rei supremo se inclina ao perdão e abranda piedoso a cólera justa e santa, protege os reinos terrestres e enche de dons abundantes as almas humanas.

Encontrava-se aí um grande móvel, cheio de livros que encerram doutrinas crivadas de impiedades e erros. Martim Lutero os compôs com mente perversa e mandou a seus filhos observá-los à risca. Enraivado, muitas blasfêmias arrojou contra o papa, Sumo Pontífice e contra a Igreja, espôsa de Cristo. Muitas outras vomitou de seus lábios impuros João Brêncio, raça de Lutero e digno da infâmia paterna; e o petulante Melanton de coracão mal-cheiroso. Também aí estava a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas imundas, dragão inchado de todo o veneno que o mundo preparou em seus monstros. É Calvino, a serpente de coleio variado e horrendo, que abraça no rôlo de suas espirais o forte, vibra olhares de fogo e agita a língua trífida em ruídos de morte. É êste quem te protegerá contra a fôrça celeste. Ó ímpio francês? estes são os arcos, estas as balas de fogo que para ti preparaste? Calvino vencer a Cristo, Senhor do céu e da terra? em que fúrias ardentes te consumias, que loucura de ti se apossava quando, desprezando a bandeira triunfante de Cristo, pensavas defender com teus venenos de monstro os muros do forte? Não sabias que o dragão que habitava as cavernas do inferno, caíra outrora vencido, quando Cristo estendeu os braços nús sôbre o lenho, santificando com rios de sangue o horrendo madeiro? Eis o digno prêmio que teus feitos merecem!


Primeira missa de Ação de Graças.

Assim alegres todos, no meio do forte vencido descansam os louvores do Pai onipotente. Erguem um altar: o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fôra aí celebrado: a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo.


Arrasamento do Forte

Então, os soldados vencedores, depois da matança, atiram-se ávidos aos mal adquiridos bens dos Franceses, carregam com êles as naus triunfantes, e arrastam os canhões que tão negras ruinas causaram lançando seus fogos. Gemem sob a massa enorme as rodas de ferro com horrendo ruído: o batel que as acolhe mal pode levar aos navios êsses pesos gigantes. Arrasam até aos últimos fundamentos o forte e abatem todos os bastiões com mãos impiedosas. Tudo se desmorona, geme a terra ao baque dos pesos. Com loucos alaridos ajuntam as toras enormes em altas fogueiras. Obras que há pouco erguiam a fronte até às estrêlas, jazem agora por terra em pedaços, prêsa do fogo voraz: á chama se ceva sem freio. A fumaça cobre o céu de escura fuligem, e em nuvens densas escurece os orbes celestes, e luzem as águas-rumorosas aos clarões da fogueira. Como quando o lavrador encerrou nos celeiros as douradas espigas, despojando de seus frutos os campos: então lança fogo às.hastes, sêcas, sobe a fumaça às alturas a relva ao longe vai crepitando, enquanto os campos se cobrem de escuros resíduos. Assim ruiu o forte francês desde as cimeiras, e o fogo num momento reduziu a cinzas êsses muros altivos.


Hino a Cristo Rei do Universo.

Foi Deus quem domou essas iras sem freio, foi êle que lhes esmagou a soberba: Cristo, sim Cristo que rege os destinos humanos, a quem o mundo dos orbes, de quem treme a terra espaçosa, o céu brilhante e o inferno de sombras trevosas. A fôrça de: teu braço, realizou estes milagres, Cristo poderoso; tu meteste no coração dos Franceses o medo cruel, de ti fugiu a multidão dos malvados, e aterrorizada abandonou as gigantescas muralhas; a ti sòmente se deve, a ti, Jesús, esta gloria! Tu reges com teu cetro o vasto. manto do espaço, e com um aceno.guias o mundo brilhante dos astros volvendo no eterno giro as arcadas celestes.

A ti obedece o sol e a lua com seu ciclo de fases, os orbes sidéreos, o misterioso lume celeste. e o oceano transparente dos espaços imensos, a aurora de raios claros e Vesper que cora, as estrelas do Sul e os astros fulgurantes do Norte a primavera e o inverno de gélidas brumas. Tu governas os abismos e os litorais rumorosos do mar, habitado de monstros, e suas ondas em luta, quando queres, o mar, ao sôpro turbulento dos ventos, se indigna e ergue em seus braços tempestades medonhas. De novo, ao teu mando, o vento indômito deixa sua raiva, e.as ondas mansas guardam fundo silêncio.

A ti obedece a terra, tu lhe fecundas o seio com as águas das altas nuvens, e ela à tua ordem, das prenhes entranhas jorra seus alegres presentes, seu variado tesouro! Tu sustentas a vida a quanto animal se abriga sob o teto celeste, pintas as aves de cores e lhes concedes a tôdas librar pelos espaços diáfanos as penas ligeiras.



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